De marginal a exótico, de folheto a cordel, de folk a cult: a construção de um cânone chamado literatura popular em verso


Francisca Pereira dos Santos

Universidade Federal do Ceará, campus Cariri
____________________________  

♦ FCRB e os estudos críticos do cordel
♦ Os novos estudos críticos do folheto sob o signo da integração nacional

♦ Cantel e cordel

♦ Atila Almeida e José Alves Sobrinho

♦ Algumas considerações finais




Índice


















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Resumo

O objetivo deste trabalho é apresentar três importantes ações iniciadas na década de 1960 que visavam “resgatar”, “reabilitar” e “recuperar” a produção poética em folheto como uma prática cultural autêntica, popular e nacional. Trata-se da política cultural desenvolvida no Rio de Janeiro pela Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) voltada à publicação de estudos críticos sobre o cordel; da presença militante do pesquisador francês Raymond Cantel na divulgação e fomento desta poética (1959-1986); e das pesquisas que culminaram com a organização e a publicação de um dicionário sobre cantadores e poetas de cordel, coordenadas por Átila Almeida e José Alves Sobrinho, na Universidade Federal da Paraíba – UFPB. As três ações elencadas caracterizam-se por serem formuladas dentro de pressupostos, sobretudo dos estudos do folclore, que produziram um discurso comum sobre a “literatura popular em verso”, e por serem responsáveis, dentre outras consequências, por estabelecer um canône nessa área. Esse discurso, entretanto, passa na contemporaneidade por questionamentos. A partir dos estudos da voz, entre outros, formulam-se novos pressupostos os quais nos ajudam a perceber novos movimentos e traduções culturais necessários aos deslocamentos para a mudança do paradigma do cordel nesse século XXI.





FCRB e os estudos críticos do cordel

Em 1960, a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), no Rio de Janeiro, uma instituição de caráter estatal ligada ao Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, dá início a um interessante projeto editorial voltado exclusivamente à publicação de pesquisas (Catálogo, Antologias e Estudos) sobre o folheto de cordel brasileiro. Tratava-se, segundo Maximiano de Carvalho e Silva, no prefácio[1] dos Estudos,[2] de um importante “plano pioneiro” que se propunha a realizar um trabalho científico sobre esta poética. O projeto previa incentivar “os levantamentos bibliográficos, a organização de coleções, a preservação de documentos preciosos” – que estivessem na iminência de se perderem –, bem como a “a publicação de estudos especializados, como os de identificação de autoria, ou das fontes de inspiração” de “temas e formas versificatórias adotadas” (p. IX, X) pelos poetas, entre outros objetivos. O plano, que é sem dúvida alguma, pioneiro, inicia-se com a publicação de um Catálogo (1961), seguido de uma Antologia (1964)[3] e, posteriormente, de vários livros em forma de Estudos (1973),[4] que passaram, a partir desse contexto, a designar o folheto de feira como uma “literatura popular em verso” ou como uma “literatura de cordel”. Para analisar o tema os ilustres autores e colaboradores do projeto: Thiers Martins Moreira, M. Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Manuel Diegues Jr e Antonio Houaiss, se basearam em pressupostos, teorias, práticas e métodos, de um lado, do pensamento tradicional brasileiro[i] e por outro, dos quadros teóricos existentes da “coleção de textos da língua portuguesa moderna” da Casa – provenientes da filologia. Interessante nesse tópico é ressaltar que, apesar destes estudos terem se iniciado bem antes do golpe de 1964, vai coincidir com as teses ideológicas do plano global da política de integração nacional.[ii] promovida pelos militares. Segundo Renato Ortiz (2006), para traçar uma política que atenda aos chamados “Objetivos Nacionais” do país, a ditadura convoca os intelectuais tradicionais para traçar a política cultural do país, os quais têm como parâmetro a cultura popular e o folclore como símbolos de uma identidade nacional. Ainda que esta “coincidência” citada não signifique uma adesão aos militares por parte de alguns pesquisadores envolvidos no plano crítico institucional, é importante observar que as bases da ação cultural desenvolvida pela FCRB tiveram não só uma teoria (o pensamento tradicional folclórico), mas coincidiriam com a política de integração nacional, promovida na ditadura militar.

No contexto em que se publicaram essas reflexões, os estudos advindos do folclore prevaleciam, ainda, com muita força. Ela define o cordel como sendo: oral, anônimo, coletivo e impresso, conforme Cavalcante de Proença (1964, p. 1) em sua Antologia. Mais especificamente, o autor afirma ser os folhetos pertencentes a uma “literatura oral em verso” (Proença, 1971, p.1) destinada a ser “recitada”, mas que “impressa, no caso, por motivos econômicos não perde a caracteristica oral” (idem). Trata-se da distinção entre duas linhas: a “folclórica” (anônima, transmitida oralmente, coletiva) e a “popular” (impressa). Notadamente eram as premissas advindas dos pressupostos folclóricos que prevaleciam em termos de análise, embora, para inserção em estudos críticos, a FCRB adotasse um programa/método de crítica textual para textos da língua portuguesa moderna, conforme ressalta Maximiano de Carvalho e Silva, no prefácio do tomo I da Literatura popular em versos:

Não foi sem razões ponderáveis, portanto, que incluímos no temário do primeiro congresso de crítica textual a realizar-se no Brasil, de 12 a 18 de novembro – o Congresso Internacional de Filologia Portuguesa, organizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa e pela Universidade Federal Fluminense – o item ‘Textos de literatura de cordel’[5]

Nota-se que, apesar de Manuel Cavalcanti de Proença nuançar as fronteiras existentes entre a poesia cantada – oral, à impressa – já em forma de folhetos, e concluir que os  “cantadores são um estágio evolutivo dos cantadores” (PROENÇA, 1972, p.1), essa nova visão apresenta o folheto – agora, chamado de literatura popular em verso e literatura de cordel -, dentro de quadros da crítica textual. O termo – literatura de cordel, contudo, não é uma novidade nessa área. Silvio Romero, Câmara Cascudo e outros autores o já tinham mencionado para intitular os versos produzidos, publicados, muitas vezes ainda cantados, pelos poetas que os imprimiam em folhas e que se transformavam em livros. A novidade é a maneira “científica” ou “filológica” que estes estudos críticos apresentam para integrar o folheto dentro de um cânone. Assim é que todo o programa destes estudos críticosvai propor para aquela poética, antes conhecida por seu público como folheto – uma palavra que estava mais próxima da voz, porque cantado nas feiras, e mais próxima da evolução das tecnologias da comunicação -, o termo de “literatura popular em verso”. É o uso do termo literatura que permite efetuar a “mudança” do folheto para outro campo de estudos, sendo que a palavra literatura, que é derivada do latim littera (quer dizer: letra escrita, carácter alfabético), o transfere para o campo da escrita, pressuposto pelo qual se evidencia que o folheto enquanto uma poética das vozes ainda está passando por processos de trânsitos. É dentro deste nova quadro que a FCRB vai apresentar o folheto mais como uma função poética do que informativa, estudando-o dentro do que chama de “novas perspectivas para análise das composições populares”, conforme um dos artigos de 1977 da Antologia Tomo III sobre Leandro Gomes de Barros, baseado nos estudos de Vladimir Propp.

Os novos estudos críticos do folheto sob o signo da integração nacional

Os intelectuais à frente do projeto político-editorial do Centro de Pesquisa da FCRB vão pensar e pontuar o folheto sob os mesmos critérios de cultura popular propostos pelo Conselho Federal de Cultura (CFC), elaborados em 1966, e o plano global da política de integração nacional da ditadura militar. Isso se deveu ao fato, segundo Renato Ortiz,[6] (de terem sido exatamente esses intelectuais da tradição os responsáveis pela elaboração da política nacional de cultura do país no contexto que abrange do golpe militar à abertura democrática. Explica ele:

recrutados nos Institutos Históricos e Geográficos e nas Academias de Letras, esses intelectuais conservadores e representantes de uma ordem passada irão se ocupar da tarefa de traçar as diretrizes e de um plano cultural para o país

ao lado de representantes do Conselho Nacional do Folclore.

É muito provável que os estudos críticos da FCRB[7] só tenham sido publicados e tenham conquistado a projeção que obtiveram devido à sua relação coincidente com a política nacionalista do Estado. Este desenvolveu através do MEC campanhas de defesa e inserção do folclore a partir do lema: “a dimensão humana da cultura do povo precisa ser reconhecida, pesquisada como um conjunto harmonioso de valores materiais e espirituais, mas principalmente respeitada e valorizada como marca de nacionalidade” (Ribeiro, 1980, p. 39).[8] Notadamente não houve grandes discrepâncias entre o que pensava a FCRB e o Estado (por meio do Conselho Federal de Cultura), que elegeu como um dos principais elementos para construção de sua política nacional, a valorização da tradição popular, conforme explica Renato Ortiz:

Voltados para o passado, eles insistem, como Gilberto Freyre em seu manifesto tradicionalista, na preservação das expressões e manifestações configuradas no passado da história brasileira. Não é por acaso que os Institutos Históricos e Geográficos cultivam a memória dos grandes nomes da história nacional, e que os folcloristas se voltam para o estudo das tradições populares. A cultura brasileira dentro desta perspectiva é vista como o conjunto de valores espirituais e materiais acumulados através do tempo. Ela é um patrimônio, e por isso deve ser preservada.[9]

É com a caracterização do cordel como “tesouro” e patrimônio (porque popular) que ele entra na ordem do discurso nacional e ganha a dimensão de autenticidade para constituição do seu cânone. A visão do folheto enquanto patrimônio nacional está presente nos estudos críticos da FCRB a partir da declaração de Horácio de Almeida na introdução do tomo II da Antologia sobre Leandro Gomes de Barros, quando ele destaca a consciência que teria essa Fundação pelo serviço que prestava à cultura brasileira com aquela publicação, pois que “tudo que é popular há de ser necessariamente nacional”.[10]

Cantel e cordel

O projeto editorial da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), ao lançar as bases críticas para a construção de uma historiografia do folheto brasileiro, teve grande êxito e renomados colaboradores. Entre estes, destaca-se o professor da Universidade de Poitiers e da Sorbonne Raymond Cantel,[11] que iniciou suas pesquisas sobre o folheto no Brasil em 1959, se transformando em um dos principais investigadores do tema internacionalmente. Segundo o professor Cantel, em uma palestra sobre a literatura popular em versos e a sua merecida importância para o Congresso Internacional de Filologia Portuguesa, realizado em 1973 em Niterói-RJ, a FCRB seria a “alma” e a coordenadora “da tarefa de preservação e divulgação da literatura popular em verso[12] do Nordeste”.[13]

Essa presença de “fora” nos leva a perceber que a constituição da historiografia oficial da “literatura popular em verso” ou “cordel” no Brasil passou por dois eixos de diálogo: o interior e o exterior. Quanto ao primeiro, refiro-me à política cultural desenvolvida pela FCRB – que reuniu pesquisadores, sobretudo do Rio de Janeiro, em torno de seu projeto de resgate do folheto -, e às pesquisas de Átila Almeida e Jose Alves Sobrinho na Paraíba; no que tange ao segundo, refiro-me à presença marcante de pesquisadores estrangeiros como Mark Curran, Ronald Dauss, Joseph Luyten e Candance Slater, que promoveram dentro e fora do país o folheto.

Esse diálogo proveniente do estrangeiro teria destaque, sobretudo, com a intervenção sistemática do professor Raymond Cantel que, entre outras ações e atividades de reabilitação e resgate do folheto, foi responsável por criar entre os anos de 1974 e 1979 um “programme des études de maitrise et de DEA à l´Université de Sorbonne Nouvelle-Paris III”[14] sobre a literatura de cordel, além de ministrar dezenas de palestras, conferências e publicar outras dezenas de artigos e textos em atas de congressos e revistas. Sobre ele o Correio do Povo, de Porto Alegre, ressaltava no final dos anos 1970:

[...] Ele é considerado uma das maiores autoridades sobre o tema, e na última semana esteve em visita a Porto Alegre, na continuidade de um roteiro de dois meses em que vem dando palestras sobre sua especialidade, em Belém, Fortaleza, Salvador, Vitória, Rio de Janeiro, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Belo Horizonte; Brasília, Curitiba, São Paulo, Florianópolis e Santa Maria.[15]

A presença reconhecida do professor francês no Brasil vai ajudar, de maneira fundamental, a divulgar ainda mais os objetivos das políticas do cânone e do governo, causando, inclusive, um efeito positivo na intelectualidade brasileira, conforme nos apresenta o exemplo que se segue, relatado pelo próprio Cantel, no jornal Estado de S. Paulo:[16]

Mas o melhor exemplo de que mudou a atitude dos pesquisadores em relação ao cordel, conclui o professor Cantel, é o exemplo do meu amigo Aurélio Buarque de Hollanda. No ‘Aurélio’ de 1956 ele publicou um verbete onde cordel é classificado como uma narrativa de pouco ou nenhum valor literário. Certamente nessa época ele desconhecia folhetos de cordel como o ABC dos Tubarões ou Viagem ao País de São Saruê que tem uma extraordinária força literária. Já em sua edição de 1970, ele mudou a sua visão. O cordel é explicado como romanceiro popular nordestino, em grande parte constituido em folhetos, pobremente impressos e expostos a venda pendurados em cordel, nas feiras e mercados nordestinos.

O cordel passa a ser divulgado como uma poética originada do romanceiro popular,[17] ganhando outro sentido, inclusive pelo novo dicionário de Aurélio Buarque de Hollanda, que afirma essa mudança em oposição ao que antes era definido como algo de “pouco valor ou nenhum valor literário”.

Como fruto de seu trabalho, Raymund Cantel deixou-nos um importante acervo, o Fonds Raymond Cantel da Universidade de Poitiers,composto de milhares de títulos de folhetos, em torno do qual foi organizado, desde 1996, pela professora Ria Lemaire, um programa de pesquisa intitulado: Estudos comparados em tradições orais em sua relação com o mundo da escrita, dentro dos pressupostos dos novos estudos orais.

Atila Almeida e José Alves Sobrinho

Enquanto Raymond Cantel circulava no Brasil coletando folhetos, conversando e recebendo os poetas para entrevistá-los, nos hotéis em que ficara hospedado, outro importante trabalho fazia o repentista e pesquisador paraíbano José Alves Sobrinho, sob a coordenação do professor Atila Almeida, da Universidade Federal da Paraíba. Os dois pesquisadores aqui são elencados dentro do processo de construção do cânone como fundamentais. Tanto por suas pesquisas enquadrarem-se no pensamento tradicional da época, em que foram construídos os estudos críticos da FCRB, como por terem publicado nesse período um dos mais importantes dicionários, contendo nomes ainda inéditos da cantoria. Além do dicionário eles ainda publicaram o Romanceiro popular nordestino - Marcos e vantagens (1981), o Glosário da poesia popular (1982) e por último, Cantadores, repentistas e poetas populares de autoria de José Alves (2003). Esses dois autores contribuíram para o campo da cantoria e do cordel com importantes publicações trazendo à cena documental vozes que até então não se conheciam.

A pesquisa de campo para coleta de dados, que resultou no Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancadas, foi realizada por José Alves Sobrinho, então auxiliar de pesquisa no Campus II da UFPb, e também considerado como um dos maiores e mais conhecidos cantadores de repente da Paraíba. Atila Almeida, professor da referida Universidade, pesquisador e filho do também conhecido historiador Horácio de Almeida, reconheceria, na introdução do Glosário da poesia popular, a importância do poeta, aparecendo em sua vida como ele mesmo disse, “fazendo ombro pr´eu trepar e lá de cima escrever em parceria com ele um dicionário”. Foi com o olhar de dentro, de quem teve 30 anos de cantoria, que esse improvisador, nascido em 1921 em Picuí, zona do Curimataú do Estado da Paraíba,[18] ajudou a registrar os principais poetas do seu tempo. Nesse livro dicionário estão registrados:

Registrados todos os nomes de cantadores e poetas populares citados em obras de estudiosos da poesia popular, descobertos em pesquisa de campo, referidos como autores em 3 000 mil folhetos compulsados, constantes de lista de outros tantos que constituem a coleção da Universidade Federal de Pernambuco (a que pertenceu a Evandro Rabelo) e do Catálogo, Tomo I da Literatura Popular em Verso, editado pela Casa de Rui Barbosa. A pesquisa de campo estendeu-se por varias cidades dos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, da Paráiba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Apesar do esforço feito, certamente muitos nomes não foram registrados e incompleta deve estar a bibliografia. Mais do que foi realizado, não seria possível em tarefa pioneira.[19]

O livro-dicionário lançado pela Universidade Federal da Paraíba, instituição de ensino superior que desde o ano de 1976 vinha realizando parcerias com a FCRB (desde o lançamento da Antologia, Tomo II sobre Leandro Gomes de Barros) -, é uma das mais importantes obras na área da cantoria e do cordel.

Algumas considerações finais

O que se observa é que o campo de estudos sobre o folheto praticamente se deparou com as mesmas questões políticas e ideológicas pelas quais passaram a construção do cânone da literatura brasileira, a saber: as fronteiras da nacionalidade, do literário e da própria noção de história literária, conforme ressalta Rita Terezinha Schmidt.[20] A noção de fronteira pode ajudar a formatar uma visão global da “política” científica por trás dos projetos elaborados pela Casa de Rui Barbosa e de seus seguidores, e que traz todas aquelas noções que aqui já enumeramos: o folheto como popular e este como nacional; uma tradição impressa do folheto analisada dentro de uma crítica textual da língua portuguesa moderna; e a história do cordel, universalizante, ibérico, fora de uma história social. Revelam-se as fronteiras reguladas pelos mesmos critérios formais que se buscam nas teses das origens do folheto, na origem dos primeiros autores, editores – sempre homens -, nas classificações temáticas e na definição dos gêneros textuais. Análises que concorrerão para a criação de uma historiografia muito parecida com a história do cânone da literatura brasileira.

Praticamente toda a política desenvolvida nesse contexto que contribuiu para dar visibilidade a essa poesia – catálogos, antologias, livros, criação de bancos de dados e reedição[21] de folhetos clássicos do gênero em sua forma canônica, entre outras formas que objetivavam reabilitar o folheto -, ficou restrita à divulgação de um passado glorioso reservado aos grandes poetas do “passado”, quase todos mortos, sendo que a noção do “resgate” estabelecida com a noção de “reabilitação” do folheto foi a principal ponte para esse passado. O surgimento de um novo tipo de poeta no contexto destes estudos, que viria a ser condenado como “imitador” de um grupo de poetas ágrafos, demonstra que o discurso da “morte” propagada do folheto relaciona-se não com a extinção do poeta, mas com as mudanças econômicas, políticas e sociais que transformaram as antigas práticas culturais.

A década de 1990, com a abertura democrática do Brasil, a existência do Ministério da Cultura e o debate das políticas de identidade, entre outros, traria muitas mudanças ao campo do cordel. Essa voz que virou palavra impressa se apropriava ainda mais de outros códigos estéticos, “[...] se transforma para sobreviver e se metamorfoseia” [22] na geração de outras linguagens. São diversas atualizações no cordel que surgem dos processos de deslocamentos, apropriação de tecnologias, da movência das vozes nos seus trânsitos na contemporaneidade e que têm relações paralelas com as novas problemáticas sociais do planeta Terra, geradas pelos conflitos de classe, gênero e etnia e pelo surgimento da sociedade da informação. Da voz para o papel impresso, e deste para outros suportes, a exemplo do ciberespaço, o cordel navega hoje tranqüilamente. Mudaram-se as temáticas e os suportes: corpo, tipografia, computador. Ao mudarem de território – do campo para a cidade, de um tema para outro, de uma escritura poética masculina para uma feminina, etc. -, incluem-se os folhetos patrocinados por instituições públicas, privadas e ONGs, bem como os novos títulos que outrora não se incorporavam nesse universo, abordando: ecologia, homossexualidade, saúde, direitos da mulher, entre outros. O cordel se ressignifica para permanecer; contudo, as mesmas categorias de pensamento pelas quais o estudamos no século XX necessitam ser deslocadas, sob pena de continuarmos tratando o folheto, no século XXI, como um produto artístico embalado à vácuo.





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Notas

[1]. M. de Carvalho e Silva, Estudos, FCRB, 1973, p. X.

[2]. Esses estudos tiveram como base para suas análises um corpus proveniente dos acervos de colecionadores como: Antonio Houaiss, Manuel Diegues Jr, Carlos Drummond de Andrade, Odilo Costa Filho, Umberto Peregrino, Rodolfo Cavalcante Coelho, bem como folhetos que foram coletados em pesquisa de campo no Norte do país por Orígenes Lessa (Cf. Catálogo, 1961).

[3]. Antologia, tomo I, 1964; Leandro Gomes de Barros, Tomo II e III – 1 e 2, 1976-77; Francisco das Chagas Batista, Tomo IV, 1977; O cordel testemunha da história do Brasil, 1987.

[4]. Estudos, 1973; R. Daus, O ciclo épico dos cangaceiros na poesia popular do nordeste, 1982; Y. Bradesco-Goudemand, O ciclo dos animais na literatura popular do nordeste, 1982; F. Süssekind; R. Valença, O Sapateiro Silva, 1983; O. Lessa, A voz dos Poetas, 1984; M. Curran, A presença de Rodolfo Coelho Cavalcanti na moderna literatura de cordel, 1987, entre outros.

[5]. M. de Carvalho e Silva, op. cit., 1973, p. IX.

[6]. R. Ortiz, op. cit., 2006, p. 91.

[7]. Essa instituição, inclusive, passa (não por acaso), a partir de 1966, conforme diz o seu site, a ter “sua personalidade jurídica alterada pela Lei No. 4.942 para melhor cumprir suas finalidades de desenvolvimento da cultura, da pesquisa e do ensino”. A informação está disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/template_01/default.asp?VID_Secao=73

[8]. M. de L. Borges Ribeiro, Biblioteca educação é cultura, Rio de Janeiro, Bloch Fename, 1980, p. 39.

[9]. R. Ortiz, op. cit., 2006, p. 96.

[10]. H. de Almeida, "Introdução", in Antologia, tomo II, FCRB, 1976, p.13.

[11]. Raymond Cantel (1914-1986) foi professor de literatura portuguesa e brasileira da Universidade de Poitiers e da Sorbonne em Paris. A tese de doutoramento de Cantel foi sobre o padre Antônio Vieira e o sebastianismo. O conjunto de seus trabalhos sobre a literatura de cordel brasileira foi publicado pelo Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Poitiers. Cf. Clément e Lemaire (orgs.), Raymond Cantel. La littérature populaire brésilienne, 2a edição (revista e aumentada), Poitiers, CRLA, 2005.

[12]. Veja como o termo “literatura popular em verso” passa a ser difundido pelo pesquisador francês.

[13]. R. Cantel, La littérature populaire brésilienne, édité par Jean-Pierre Clément et Ria Lemaire, Poitiers, Centre de Recherches Latino-Américaines, 2005, p. 367.

[14]. Ibid., p. 20.

[15]. Correio do Povo, Porto Alegre, 17-10-1978, Fonds Cantel.

[16]. Do 18-09-1978.

[17]. M. Diegues Jr., "A influência ibérica na formação desse tipo de poesia popular, que, em grande parte, se origina do velho romanceiro peninsular”, 1973, p. 6.

[18]. Sobre o poeta José Alves Sobrinho: J. de S. Diniz, O rouxinol da saudade: o canto do poeta José Alves Sobrinho, mémoire de Maîtrise en Littérature, Université de Poitiers, 2000.

[19]. Almeida, A. Augusto F. de & Sobrinho, J. Alves, Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada, Tomo I e II, João Pessoa, Editora Universitária, UFPB, 1978, p. 9.

[20]. R. T. Schmidt, “Poética e política: o romance do século XIX à margem da literatura”, in: Bragio d'Angelo (org.), Coletânea nuevas cartografias literárias en América Latina: entre la voz y la letra, Lima, Fondo editorial, 2007, pp. 1-2.

[21]. Política desenvolvida pelo núcleo de cultura popular da Universidade Federal da Paraíba, tendo a professora Neuma Fechine como coordenadora. Cf. A literatura popular em questão, 1982.

[22]. G. de Carvalho, “Cordão, cordel, coração”, Cult-Revista Brasileira de Literatura, São Paulo, 1-1-2002, p. 48.

[i]. Cujos conteúdos estão relacionados, por um lado, às idéias de Sílvio Romero e Câmara Cascudo (Comissão Nacional do Folclore - CNF) e, por outro, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e seus congêneres regionais;

[ii]. Como afirma Ortiz, “A noção de integração, trabalhada pelo pensamento autoritário, serve assim de premissa a toda uma política que procura coordenar as diferenças, submetendo-as aos chamados Objetivos Nacionais”. R. Ortiz, 2006, p. 82.