O cordel como meio didático. O velho espírito e as novas formas



Maria Aparecida Ribeiro

Universidade de Coimbra
____________________________  

♦ O cordel didático
♦ A gramática em cordel

♦ O cordel dicionário

♦ O cordel catequético

♦ O cordel que ensina o cordel

♦ Conclusões




Índice


















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As múltiplas classificações existentes para a literatura de cordel costumam misturar conteúdo e forma. Manuel Diegues Júnior[1] tenta uma classificação por ciclos temáticos, mas esbarra nas cantorias e pelejas, que mais dizem respeito ao modo que propriamente ao tema. Irani Medeiros,[2] poeta popular de Pombal (Paraíba), também prefere a divisão por temas, embora diferente da proposta por Diegues Júnior. Manuel Cavalcanti Proença[3] utiliza dois parâmetros: um que inclui gêneros, forma e temas; outro que se baseia no herói enquanto corporificação de um incidente e enfatiza o tema. As bibliotecas especializadas como as do Museu do Folclore, da Fundação Casa de Rui Barbosa, da cordelteca da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, costumam também classificar os cordeis por ciclos temáticos.

Em função disso, há trinta e seis anos, propus uma outra, com base nos gêneros.[4] Como o cordel visa a comunicação, não abriga em seu seio manifestações do eu pessoal; se o poeta lírico é um solitário e não se interessa pelo público, tal não pode acontecer com a literatura de cordel, que pressupõe a existência de muitos “tus”. A narrativa é, portanto, o gênero adotado pelo cordel de todos os tempos no Brasil: narrativa de caráter épico e de caráter romanesco, incluindo-se aí a crônica, pois, mesmo narrando um fato circunstancial, o cordelista não pode deixar de lhe imprimir um sabor de romance, de caso, de acontecimento. Assim tivemos, recentemente, mil e uma aventuras de Bin Laden. A par do narrativo, lembrávamos, em nosso estudo, que o outro gênero desenvolvido nos folhetos é o dramático, aí incluídas as pelejas.

O que Cavalcanti Proença chamou poesia didática, dividindo em doutrinária (ensinamentos e profecias), satírica (social, religiosa e política), por competição (pelejas e discussões) ficaria contemplado em nossa classificação, sem que, no entanto, fosse dada ênfase à intenção de ensinar a ela inerente. Isso não só porque, literariamente, o didático é um modo como a sátira, podendo existir sob a forma narrativa ou sob a forma dramática, como também porque, nos cordéis de então, esse modo não se apresentava com a pujança de hoje.

Como a chamada literatura erudita, também a de cordel está exposta às modas, preferências de público, necessidades e gostos de época. A preocupação com a educação no Brasil tem levado a que escolas do Nordeste do país procurem ensinar aos alunos a elaboração de folhetos, o que, aliás, vem sendo objeto de discussão no blog Mundo Cordel. Foi o trazer para dentro da sala de aula o que já existia em algumas fazendas e que é relatado por Ariano Suassuna no seu Romance da Pedra do Reino.[5]

Paralelamente a essa ação da escola que encontra raízes nos mestres de cantoria, vêm surgindo, desde a última década do século XX, uma série de folhetos com caráter eminentemente didático, sigam eles uma linha narrativa ou dramática. Alguns informam mesmo na capa serem dedicados a crianças; outros abordam temas relativos à população adulta. O folheto A incrível história da imperatriz Porcina, por exemplo, na versão de Evaristo Geraldo da Silva, cearense de Quixadá, foi adotado pela Secretaria de Educação do Ceará para a educação de jovens e adultos. E há poetas de cordel como Abraão Batista, que se propõe, na contracapa de um seu folheto, realizar oficinas de xilogravura e de cordel, “para escolas em qualquer nível”. Arievaldo Viana, cearense, defende a utilização do cordel na sala de aula. Mas há outros casos, em que os folhetos servem para vender um produto, publicitar uma loja, fazer propaganda política. A esses, porém, chamaríamos cordeis de publicidade e sobre eles acaba de sair um interessante livro de Clotilde Tavares, O Verso e o Briefing, embora Gilmar de Carvalho, já tenha apontado o fenômeno num livro de 1994: Publicidade em Cordel: o mote do consumo.

O que nos interessa neste momento são essas duas vertentes: o cordel que tem o ensinar como objetivo e a adopção do ensino do cordel em sala de aula. Do primeiro serão dados alguns exemplos e tentar-se-á estabelecer uma tipologia; no caso do segundo, comentar-se-ão de forma breve as vantagens e os perigos.


O cordel didático

Entre os exemplares de cordel didático que encontramos, há os dedicados à transmissão de conhecimentos sobre a língua portuguesa, em seus aspectos gramaticais e léxicos, à linguagem gestual para surdos, à alimentação e saúde, a campanhas de amamentação, de utilização do lixo, de educação para o trânsito, contra o tabaco e a droga, à fixação de lendas e provérbios, ao ensino do próprio cordel, à “lição de coisas”, isto é, o que pretende dizer quais os melhores alimentos, que plantas podem contribuir para a saúde, dar noções de geografia, enfim, o que pretende divulgar uma série de informações que, em geral, fazem parte de programas da escola elementar.

Na impossibilidade de discutir essa infinita variedade, trataremos apenas do cordel que ensina o cordel, da gramática em cordel, do cordel dicionário e do cordel catequético.

A gramática em cordel

De entre os vários títulos que contemplam a gramática, escolhemos dois. O primeiro, Lições de Gramática em Versos de Cordel, de Janduhi Dantas, professor de cursinhos pré-vestibulares na região de Patos (Paraíba), onde nasceu, e autor de outros muitos cordéis, foi publicado por uma editora do Sudeste com tradição em estudos sobre literatura de massa e literatura popular, a Vozes, e não é graficamente um folheto, mas um livro: são 118 páginas, sob capa plastificada, com orelhas, onde figura a cores o retrato do autor e tem até ficha catalográfica.[6] O desenho da capa, embora lembre as xilogravuras populares, é feito por artista com estudos universitários: Edglei Rodrigues, também paraibano de Patos, graduado em Desenho Industrial e mestrando da Universidade Federal de Tocantins, sendo professor do Curso de Comunicação Social do Centro Universitário Luterano de Palmas (Universidade Luterana Brasileira). 

Janduhi capricha nas sextilhas que escreve (até finaliza com assinatura em acróstico) e torna, de fato agradáveis, e fáceis de lembrar algumas noções gramaticais. Apenas escorrega ao definir ditongo, para ele, a união de duas vogais na mesma sílaba.

O outro cordel, A Gramática em Cordel, da autoria de José Maria de Fortaleza, foi publicado primeiramente no Canindé, pela Tupynankim, em 2001, merecendo uma 5ª edição, atualizada com o Acordo Ortográfico e agora saída na capital do Ceará,  ainda pela mesma editora.[7] Bem mais resumido que o de Janduhy, o cordel de Zé Maria é também bem menos didático em termos de organização: o próprio acordo ortográfico fica por explicar, pois o autor acaba por reduzi-lo ao acréscimo de letras no alfabeto ­  —

No nosso alfabeto, as letras
Eram apenas vinte e três
O K, o W e o Y
Chegaram de uma só vez
Hoje o nosso abecedário
Nos aponta vinte e seis.

O número de informações erradas é também maior: cai no mesmo erro de Janduhy para explicar o ditongo e o tritongo:

Grupo de duas vogais
Numa sílaba em Português
Sabemos que é um ditongo,
Tritongo, quando é de três.

Confunde ainda as noções de dígrafo e encontro consonantal, mas termina os versos na rima a ingenuidade do cordelista:

É em nosso Português
Encontro consonantal
Um grupo de consoantes
Numa só sílaba, afinal,
Às vezes formando dígrafo
Nesse nível cultural.



O cordel dicionário

Se esse é o panorama dos cordeis que pretendem ensinar gramática, vejamos os que exercem a função de dicionários. Escolhemos Estude o dicionário se quiser saber também, de Maria Julita Nunes;[8. Novo dicionário cearense (Dictionary), de Anchieta Dantas[9]; O linguajar cearense – o dicionário cearensês em cordel, de Josenir Lacerda, autora nascida no Crato (Ceará);[10] Dialeto potiguar: palavras e expressões populares do Rio Grande do Norte, da autoria de Henrique Eduardo Oliveira;[11] Dicionário Norte-rio-grandês (veja-se que não é grandense, a forma consagrada), de Izaías Gomes de Assis;[12] Dicionário Paraibês, de Vicente Campos Filho, natural de Patos (PB), ao que parece, impresso às expensas do próprio autor.[13] Destinado, segundo este “à promoção da nossa cultura entre os que visitam a Paraíba”, deve certamente a sua 2ª edição não só aos “turistas que aqui chegam e que buscam informações sobre a cultura paraibana”, mas aos paraibanos, porque tanto estes como aqueles “se deliciam com os termos apresentados.”[14]

O folheto de Maria Julita, vem na mesma capa de outro, da autoria de Manoel Monteiro, Poesia popular para ler e brincar, que assim apregoa as vantagens do cordel didático:

A poesia é recurso
De utilidade prática
Conta história do passado
Nos dá lições de gramática
Melhora o verbo e a verve
Além disso também serve
Para ensinar matemática.[15]

E segue falando de festas e danças folclóricas brasileiras, sempre aproveitando para, na cadência e na rima do verso, deixar uma lição no ouvido do leitor:

Mas a fogueira não deve
Servir pra queimar madeira
Lembrem que o fogo e a lenha
É tudo de brincadeira
Pra gente se divertir
Não precisa destruir
a floresta brasileira. [16]

Com o mote “Estude o dicionário / Se quiser saber também”, Julita vai informando entre outras coisas —

U’a matula é farnel
O quadril de boi é anca
A égua nova é potranca
aro de dedo é anel
De papiro faz-se papel
Um empório é armazém
Nascido há pouco é recém
Grande desgosto é fadário
Estude o dicionário
Se quiser saber também [17]

Para concluir: 

Terminei esta pesquisa
Para ajudar estudante
No estudo ser constante
Pois assim se valoriza
Quanto mais lê mais precisa
E cultura lhe advém
Mas se a preguiça intervém
O futuro é temerário
Estude o dicionário
Se quiser saber também.[18]

Mais uma vez, temos um cordel em que se vê o apoio governamental, o da FUNCESP (Fundação de Cultura e Esportes de Campina Grande), juntamente com o de uma escola Colégio Atual. Aliás, Manoel Monteiro anuncia na última capa que, em sua cordelaria, dispõe “de um variado sortimento de cordeis para escolas, colecionadores etc.”

O cordel de Josenir se por um lado tem um título que lembra o de um estudo linguístico a sério, por outro, traz no subtítulo um artigo, que o torna singular, e um neologismo que guarda o tradicional humor do cordel e desconstrói essa possível seriedade. A autora começa definindo as características do poeta (observação, gosto pela pesquisa e pelo estudo), para oferecer ao leitor “o rico vocabulário da criação popular” que “garimpou” no Ceará.[19] Algumas das palavras pertencem, porém, ao domínio nacional e não apenas cearense, como bocó, cair de pau, tudo jóia, caixa prego, casinha, pinote, birita e arapuca, sendo às vezes até correntes em Portugal, caso de supetão, esparrela, cachaço. Outras têm uso no Nordeste em geral, como “o xênte!”, quenga (hoje talvez mais difundida em outras regiões brasileiras, em função das novelas de caráter regional). Há ainda casos em que a origem é portuguesa e as palavras são usadas em Portugal, mas não em todo o restante Brasil. Como bacorim (em Portugal e em alguns espaços brasileiros, bacorinho), diminutivo de bácoro, que utiliza um sufixo arcaico, o que se explica pela situação de isolamento a que foi devotada a população nordestina do interior.

Já o folheto de Anchieta Dantas, o Zé do Jati, também cearense, usa apenas como suporte o cordel. Não é escrito em versos e não tem, aparentemente patrocínio. Mas graceja, no espaço destinado à ficha catalográfica: “Este dicionário só foi possível, graças a valiosa contribuição da Faculdade de Ciências |Ocultas e Letras Apagadas e contou com a participação dos professores: Salvio Pinto e Takuku Nakara”. Esse humor que entra na esfera do pornográfico, terreno que, aliás, vem sendo fértil para cordéis completamente avessos aos padrões tradicionais e dos quais muitos exemplares tenho recolhido no Ceará, preside algumas das explicações dadas ou expressões selecionadas, como por exemplo “couro de pica”: “coisa ou pessoa que vai volta”. Ex.: "fulano nem para em São Paulo, nem aqui. Tá igual a couro de pica”.[20] Em algumas ocasiões, Anchieta cai nas mesmas armadilhas que Josenir Lacerda, restringindo ao Ceará expressões usadas pelo Brasil afora e até em Portugal. Mas há momentos bastante interessantes, pois o cordelista arrola expressões de vida efêmera e que registram uma extensão semântica, como: “Coxinha: pessoa muito falsa. Personagem do humorista Hiram Delmar, no Programa “As garras da patrulha”, TV Diário Fort. Ce.”.[21]

Henrique Eduardo de Oliveira que divide o seu cordel em três tomos, dá-lhe como subtítulo “palavras e expressões populares no Rio Grande do Norte”. Foge, assim, do perigo de restringir a seu Estado, vocábulos de uso mais amplo. Além disso, resalva que “muitas palavras e expressões são comuns a diversos Estados”.[22] Claro que, em alguns casos, também poderia ter incluído Portugal, pois há palavras catalogadas que são usadas também aí. E, se como Anchieta Dantas, usa o folheto apenas como suporte, diferentemente dele, registra para cada palavra uma espécie de abonação, embora não propriamente oriunda de um texto literário, mas de sua autoria. Já a presença da palavra Dialeto, no título, vem apoiada pelas definições que dela nos dá Aurélio Buarque de Holanda, em seu Dicionário da língua portuguesa.

Bem menos cuidado que o cordel que se acabou de referir[23] e, como os outros, fazendo algumas confusões, o cordel de Izaías Gomes de Assis mantém a forma do verso. É verdade que ele não reduz à esfera potiguar as palavras que seleciona, pois apenas diz que vai mostrar “como se fala arretado / no Rio Grande do Norte”.[24] No entanto, explica que “há grafia correta para os termos colocados em itálico”,[25] quando, na realidade, nem sempre se trata de um problema ortográfico; a maioria é reflexo de um fenômeno fonético, como, por exemplo, a síncope, a prótese, a redução de uma vogal.[26]

O Dicionário de Paraibês repete o neologismo já utilizado por Izaías Gomes de Assis e por Josenir Lacerda, agora, porém, com uma explicação que pode levar os menos cultos a tomar a graça ao pé da letra e assimilar a informação como verdadeira :

Todos sabem no Brasil
Que o idioma é o Português
Assim como lá na França
Todos falam o Francês
Por isso na Paraíba
Falamos PARAIBÊS.[27]

Sem nenhuma ressalva, na trilha de todos os outros, exceção feita a Henrique Eduardo de Oliveira, relaciona nesse “paraibês” termos e expressões usadas no restante Brasil e até em Portugal, como neste caso: “Cisco no olho é argueiro”.[28] E, também como os outros, mas mais uma vez tendo Henrique Eduardo por exceção, busca o humor, como forma de conquistar o público.

O cordel catequético

Por coincidência ou não, os cordeis desse tipo de que tenho notícia são todos potiguares. O matrimônio[29]e O batismo,[30] de Conceição Gama, que fazem parte de uma série que não pude conhecer por inteiro, mas cuja compra ajuda, como informa a capa, à “manutenção e às obras de caridade da paróquia de N. Sra. da Esperança”; Na trilha do Evangelho, de Moacy Barbosa Nunes,[31] com patrocínio de Iraktan do Pastel, estabelecimento publicitado na última capa por uma estrofe heptassilábica, em redondilha maior e o esquema rimático ababccb; O verdadeiro sentido do Natal, de Sírlia de Sousa Lima,[32] educadora natural de Mossoró.

Tomarei como exemplo, por uma questão de espaço, apenas um cordel: O matrimônio, de Conceição Gama, paraibana, empresária e ministra da comunhão, residente em Natal há mais de vinte e dois anos. Ela procura seguir de perto a doutrina da Igreja Católica e difunde conceitos que, muitas vezes, foram deturpados ao longo dos tempos. Por exemplo: popularmente se diz que o padre casa os noivos, mas não é bem assim. Foi a partir do Concílio de Trento (1545-1563) que se tornou obrigatória para validade do matrimônio a chamada “forma matrimonial” ou seja a presença obrigatória no ato sacramental do bispo ou da padre, agora também do diácono. Esta forma pode dispensar-se em situações extremas. Trata-se apenas de uma testemunha qualificada presente em nome da Igreja para verificar e dar validade ao ato sacramental. Antes não se requeria, porque a tal não obrigava  o casamento não sacramento. Por isso Conceição explica:

Os ministros são os noivos
Do sagrado casamento
E o padre é testemunha
Diante do juramento
Para assim constituir
Um dos sete Sacramento [sic].[33]

E lembra: “Tem também o matrimônio / A função de procriar”.[34] Ora a procriação, no anterior código e na doutrina corrente, era considerada o fim primário do matrimônio. Esta decisão criava problemas óbvios: então, quando pela sua idade, por exemplo, os cônjuges já não podiam ter filhos, podiam casar? Para que, se o fim primário do matrimônio não se podia realizar? Agora se diz, can. 1055,  que o matrimônio pela sua índole natural está ordenado para o bem dos cônjuges e para a geração e educação dos filhos. Assim acaba o  modo  anterior de falar  de fim primário – procriação e educação da prole – e fins secundários , a ajuda mútua e o remédio da concupiscência.

Às vezes, porém, para aliviar a seriedade do assunto, como forma didática até, Conceição recorre ao humor típico do cordel e não se coíbe de usar formas e expressões da linguagem popular:

É chegado o grande dia
Que a aliança vai mudar
do dedo da mão direita
Pra esquerda no altar
Se o cabra for “mei” frouxo
Vai nas calças se molhar.

Ou então:

O noivo tremendo as pernas
Recebe a sua amada
Que de branco é vestida
Nos trinques, bem ajeitada
Com um véu cobrindo a cara
E um buquê pras encalhada [sic].[35]



O cordel que ensina o cordel

Zé Maria de Fortaleza, Arievaldo Viana, Klévisson Viana são todos cearenses e cordelistas conhecidos, além de apologistas de que o cordel deva ser ensinado nas escolas. Com esse intuito escreveram A didática do cordel, publicado pela Tupynankim, editora de propriedade dos dois últimos, em 2005.[36] Embora o título seja ambíguo, pois por um lado parece que vai ensinar a ensinar e, por outro, parece que anuncia que vai dizer como se faz um cordel, o que se faz é, numa divisão bastante didática, com subtítulos e tudo, é explicar o que é cordel; suas origens; como chegou ao Brasil; a influência da imprensa em seu modo de produção, e, finalmente, dizer como se compõe, quais os cordelistas famosos e quais os clássicos do cordel.

Como toda forma didática, o folheto peca pela simplificação. Um bom exemplo é que nas cinco sextilhas dedicadas à composição do cordel, só é dada uma opção estrófica — a sextilha; uma opção métrica — o verso de sete sílabas; uma rimática — ababab, quando sabemos da existência de uma razoável variedade.

Esse folheto nos leva, porém, por duas razões, a pensar não propriamente na interferência dos media na produção do cordel, como ele próprio refere, mas na da Universidade e dos pesquisadores. Se nas duas últimas páginas, Arievaldo, Zé Maria e Klévisson tecem em prosa observações sobre o papel de pesquisadores e folcloristas, concluindo que “Definitivamente, o papel do pesquisador é estudar o fenômeno, sem interferir no processo criativo do artista que o gera. Aí enfeixam-se todas as prerrogativas que tratam da objetividade da Ciência a falar por nós…”, para definir cordel vai buscar, por rima, mas também por solução, o nome do professor que divulgou em França o cordel brasileiro:

O folheto popular
denominado cordel
a sua definição
segundo Raymond Cantel
É poesia popular
impressa sobre o papel.

Já um folheto publicado por Manuel Monteiro, Quer escrever um cordel? Aprenda a fazer fazendo[37] apesar de também tentar uma explicação sobre as origens do termo, valorizando a contribuição brasileira, melhor, nordestina, para o seu florescimento e difusão, procura, realmente, ensinar a escrever um folheto. Valoriza o metro e a rima (embora erre na definição de rima rica e rima pobre), e dá exemplos:

Por isso o cordel bem feito
precisa está (sic) enquadrado
na métrica e no bom rimar
evitando o pé quebrado
Se quer fazer direitinho
é só seguir o caminho
Como abaixo é demonstrado

Matar o tempo, que asneira!
Dizemos constantemente
Se o tempo vai sem canseira
Aos pucos matando a gente

Como o cordel anterior, este nos mostra uma interferência: agora, não dos media, mas da Secretaria de Educação da Paraíba, que vem desenvolvendo o Projeto “Viva o Cordel”. Se o Complexo Cultural Regina Coeli e a Secretaria de Educação anunciam na última capa, na penúltima, o Secretário Municipal de Educação, Professor Pedro Lúcio, fala das vantagens do uso do folheto e oferece ao professorado “mais esta ferramenta”.


Conclusões

Por esse último exemplo, observa-se o empenho de um organismo oficial em propiciar o ensino do cordel nas escolas. No entanto, como frisa o cordelista citado, o aprendizado deve ser um exercício de ouvido. Acrescentaríamos: de vocabulário, de coordenação de ideias, de sentido. É preciso, porém, que tal ensino não vire lei: a obrigatoriedade poderá originar nos alunos um sentimento negativo com relação ao cordel e à poesia.

Pelos exemplos que se puderam aqui trazer vê-se que o panorama da produção cordelística nos últimos dez anos tem mudado: surgiu um grande número de folhetos – e das mais variadas espécies (embora aqui só tivéssemos podido tratar de algumas) — marcados pela preocupação didática; o interesse governamental pelo cordel traduz-se, no caso da Paraíba, pelo patrocínio, coisa que, até bem pouco tempo, não ocorria; aumentou o número de mulheres cordelistas. No entanto, apesar dos novos temas, dos novos patrocínios, das novas apresentações gráficas e do aumento da fatia feminina em sua produção, o cordel didático mantém as sua formas métricas, rímicas, e de distribuição de versos, além, claro, do velho espírito de docere cum delectare, que deve estar sempre na mente daqueles que produzem e daqueles que pretendem levar esse tipo de literatura à sala de aula.











Notas

[1]. M. Diegues Junior, “Ciclos temáticos na literatura de cordel”, M. Diegues Junior et al., Literatura Popular em Verso, Belo Horizonte, Itatiaia, São Paulo, Editora da Unicamp, Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, v.1, 1986, pp. 29-178.

[2]. I. Medeiros, “Literatura de Cordel: origem e classificação”, M. F. B. Batista et al., Estudos de Literatura Popular (edição comemorativa dos 25 anos do PPLP), João Pessoa, Editora Universitária, 2004, pp.313-328.

[3]. M. C. Proença, A Ideologia do Cordel, Rio de Janeiro, Imago, Brasília, MEC, 1976.

[4]. M. A. Ribeiro, “As várias faces do cordel”, Delfos. Revista da Associação dos Diplomados da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, nº 15/16, 1975-1976, pp. 41-51.

[5]. A. Suassuna, Romance da Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta: romance armorial-popular brasileiro, Rio de Janeiro, José Olympio, 1976, p. 243.

[6]. J. Dantas, Lições de Gramática em Versos de Cordel, Petropólis, RJ, Vozes, 2009.

[7]. J. M. Fortaleza, A Gramática em Cordel, Fortaleza, Tupynankim, 2011, p. 5.

[8]. M. J. Nunes, Estude o dicionário se quiser saber também, Campina Grande, 2000.

[9]. A. Dantas, Novo dicionário cearense, Fortaleza, Katre-Vage, 2009.

[10]. J. Lacerda, O Linguajar Cearense – o dicionário cearensês em cordel, Fortaleza, Tupynankim, s.d.

[11]. H. E. Oliveira, Dialeto Potiguar: palavras e expressões populares do Rio Grande do Norte, Natal, edição do autor, 3v, 2010.

[12]. I. G. Assis, Dicionário Norte-rio-grandês, Parnamirim, Chico Editora, 2011.

[13]. V. Campos Filho, Dicionário Paraibês, Campina Grande, edição do autor, s.d.

[14]. Cf. url: http//:cordelparaiba.blogspot.com/2010/05/cordelista-paraibano-vicente-campos.html (consultado em 02/10/2011).

[15]. M. J. Nunes, op. cit., p.8.

[16]. Ibidem, p. 2.

[17]. Ibidem, p. 9.

[18]. Ibidem, p. 16.

[19]. Cf. J. Lacerda, op. cit., pp. 1-2.

[20]. A. Dantas, op. cit., p. 4.

[21]. Ibidem, p. 4.

[22]. H. E. Oliveira, op. cit., v. I, p. 1.

[23]. Até na capa, onde a xilogravura, de autoria de Izaías, é bem concebida, porém primariamente executada.

[24]. I. G. Assis, op. cit., p. 1.

[25]. Ibidem, p. 1

[26]. Vejam-se: “Dizer anda é dizer: Macha!”; Dar a volta é arrudiar. (Assis, op. cit., pp. 3-4)

[27]. V. Campos Filho, op. cit., p. 1.

[28]. V. Campos Filho, op. cit., p. 1.

[29]. C. Gama, O matrimônio, Natal, Paróquia de Nossa Senhora da Esperança, 2011.

[30]. C.  Gama, O batismo, Natal, Paróquia de Nossa Senhora da Esperança, 2011.

[31]. M. B. Nunes, Na trilha do Evangelho, Natal, DCR Digital Gráfica Rápida, s.d..

[32]. S. S. Lima, O verdadeiro sentido do Natal, Natal: Casa do Cordel, 2009.

[33]. C. Gama, O matrimônio,  op. cit., p. 7

[34]. Ibidem, p. 6, sublinhado nosso.

[35]. Ibidem, p. 4

[36]. Z. M. Fortaleza, et al., A didática do dordel, Fortaleza, Tupynankim, 2005.

[37]. M. Monteiro, Quer escrever um cordel? Aprenda a fazer Ffazendo, Campina Grande, Paraíba, Gráfica Martins, 2002.