Natureza e ambiente na literatura de cordel brasileira



Carlos Nogueira

IELT, FCSH
Universidade Nova de Lisboa
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Índice


















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A literatura de cordel brasileira inclui, desde o seu início, temas e motivos ligados à natureza e ao ambiente. Identificados com o seu país, os poetas exaltam o mundo rural, o sertão, os animais, o mar do Brasil. Em folhetos de vários ciclos, a descrição emocionada da natureza é um convite à participação do leitor na grande “alma brasileira”, que não pode prescindir da fruição estética das paisagens nem do conhecimento ativo dos recursos naturais e humanos que se lhe associam.

Mas “Este querido Brasil/ Triângulo da Natureza”, nas palavras de Antônio Teodoro dos Santos,[1] é muitas vezes espaço de devastações naturais, de secas e inundações, a que os poetas também se referem insistentemente. É o caso de Patativa do Assaré, que, no ABC do Nordeste flagelado, descreve as consequências da seca na terra, na fauna, na flora e nas pessoas, e evoca Cristo e Deus, pedindo-lhes auxílio. Este poema é uma espécie de oração dolorida em que entram momentos descritivos e passagens expressionistas, e elementos cosmológicos, teológicos e antropológicos:

Raquítica, pálida e doente
Fica a pobre criatura
E a boca da sepultura
Vai engolindo o inocente,
Meu Jesus! Meu Pai Clemente
Que da humanidade é dono
Desça do seu alto trono,
Da sua corte celeste
E venha ver seu Nordeste
Como ele está ao abandono.[2]

Nos poemas de Patativa do Assaré, a natureza aparece-nos na sua multiplicidade de mundo pleno de recursos e belezas naturais, mas também atravessado por agruras e injustiças que importa mostrar e denunciar. N’O Meu Livro, o enunciador declara-se discípulo de Deus e da Natureza, em cujo livro aprende a ser um poeta inspirado e profético, libertado e libertador:

Meu nome é Chico Braúna
eu sou pobre de nascença,
deserdado de fortuna
mas rico de conciência.
Nas letras num tive istudo
sou mafabeto de tudo
de pai, de mãe, de parente.
Mas tenho grande prazê
pruquê aprendi a lê
duma forma deferente

ABC nem beabá
no meu livro não se encerra.
O meu livro é natura
é o má, o céu e a terra
cum a sua imensidade [3]

É através do verso que este autor pensa, frui e participa na natureza de Deus e na natureza física, de que descreve as belezas e as inter-relações ecológicas. “O verde camaleão”, por exemplo, “verde da cor da esperança/ Com o flagelo que avança/ Muda logo de feição/ [...]/ Perde a sua cor bonita/ Fica de forma esquisita/ Que causa admiração”.[4]

A observação do funcionamento sublime da natureza pode inspirar e espiritualizar o ser humano, que deve estar atento às lições do ambiente telúrico e cósmico:

Segue o seu caminho isato
até a própria furmiga
trazendo foia dos mato
dentro da terra se abriga
sem nada contrariá,
cumprindo a lei natura
ao divino mestre atende.
Sabe até fazê iscoia
pois ela só corta a foia
das foia que não lhe ofende[5]

Em A terra é natural, e em muitos outros textos, Patativa do Assaré exprime, mais uma vez, o seu amor pela natureza, mas a sua crítica tem em vista aqueles que exploram a terra em seu benefício exclusivo. O poeta, em nome da sacralização da natureza, da valorização dos explorados e do comunitarismo tradicional do sertão, reclama pacificamente a terra que lhe pertence:

Iscute o que tô dizendo,
seu dotô, seu coroné:
De fome tão padecendo
meus fio e minha muiê.
Sem briga, questão nem guerra,
Meça desta grande terra
umas tarefas pra eu!
Tenha pena do agregado
não me dêxe deserdado
Daquilo que Deus me deu [6]

Não lhe interessam os bens materiais daqueles que têm dinheiro e poder de decisão; interessa-lhe viver em simplicidade, humildade e comunhão com a natureza, de onde retira o sustento e a alegria de viver:

Não invejo o seu tesoro,
sua mala de dinhêro
a sua prata, o seu oro
o seu boi, o seu carnêro
Seu repôso, seu recreio,
seu bom carro de passeio,
sua casa de mora
e sua loja surtida,
o que quero nesta vida
é terra pra trabaiá[7]

Os folhetos de Patativa do Assaré são suficientes, em número e em qualidade, para que possamos falar de um ciclo que até hoje não foi proposto, que saibamos, nas classificações da literatura de cordel brasileira: “natureza e ambiente” ou “ecologia”.

A partir de finais da década de 70 do século passado, e, em particular, nos últimos dez anos, na sequência do desenvolvimento da consciência ecológica à escala mundial, surgiram folhetos que nos permitem dizer, ainda com mais propriedade, que devemos acrescentar o ciclo “natureza e ambiente” ou “ecologia” às classificações de autores como Leonardo Mota ou Ariano Suassuna.

Alberto Porfírio, com o folheto Não mate a natureza, publicado em 1979, é um dos primeiros poetas a trazer para o cordel as grandes questões ambientalistas, à luz dos debates científicos e dos tratados internacionais que, na altura, já contestavam o paradigma tecnológico. Tal como Patativa do Assaré, o poeta elogia a natureza, censura a atitude de hostilidade do ser humano em relação a tudo o que constitui o mundo natural e dirige-se também aos poderosos, que responsabiliza pela exploração dos mais pobres.

Alberto Porfírio critica o modo como o ser humano se tem relacionado unilateralmente com a natureza, insistindo na sua mercadorização e esgotamento de recursos, e propõe, por isso, alternativas: a alteração do paradigma excessivamente tecnológico por um paradigma ecológico, que exige reciprocidade entre o Homem e a natureza, a entrega da terra a quem a quer trabalhar e o fim das riquezas e dos privilégios desmedidos dos poderosos. Nestas estrofes, irônicas e satíricas, ficam evidentes as reivindicações daqueles que viveram e vivem o “movimento dos sem-terra”:

Está errada, senhores,
essa distribuição.
Uns têm muito e muitos, nada.
Por causa da ambição.
Será que alguém não conhece
do problema, a solução?

Conhece, todos conhecem
como corrigir a falha.
O espaço é para as aves,
a terra é pra quem trabalha.
Quem não se apercebe disso
é imbecil e canalha.[8]

O poeta não recusa a ideia de progresso, nem quer limitar a curiosidade humana, mas defende que a tecnologia deve estar ao serviço de uma relação harmoniosa entre a natureza e as pessoas, entre os ritmos naturais e o crescimento. O ser humano necessita de controlar os seus desejos de conquista e de dominação sobre tudo o que existe, ou acabará por se autodestruir:
Os cientistas modernos
arriscam terríveis planos
em seus estouros atômicos
nas águas dos oceanos
onde exterminam os peixes
e ameaçam os humanos.

Agora nos perguntamos:
A salvação, qual seria?
E respondemos: usarmos
toda tecnologia
pensando no bem comum
com paz e muita harmonia[9]

Estes versos resumem exemplarmente as aspirações dos movimentos ecologistas e de defesa do ambiente, e têm subjacente a ideia de que o sucesso da ecologia implica uma economia séria e científica.

Esta transformação não se pode fazer sem amor e respeito pela natureza, sem a sua contemplação e o seu estudo, sem uma articulação equilibrada entre a ecologia espiritualista, a técnica e conhecimentos básicos de ciências naturais, que o poeta vai introduzindo, com clareza e eloquência, no seu discurso simultaneamente literário, científico e didático:

As abelhas, por exemplo,
são insetos benfeitores
dão-nos mel e colaboram
com fecundação das flores;
estão também se acabando
nas mãos dos poluidores.[10]

Não mate a natureza mostra-nos como na linguagem poética é possível conciliar intensidade com informação e combatividade, sentimentos estéticos com indignação, razão e protesto. Neste folheto, em que não aparece ainda o vocábulo “ecologia”, convivem palavras tradicionalmente usadas em poesia com termos e expressões de áreas semânticas do ambiente, das ciências da vida e das ciências sociais. O léxico da natureza conjuga-se com termos como “poluição” (2),[11] “inseticidas” (3), “pesticidas” (3), “fábricas” (4), “fumaças” (4), desflorestamento” (8), “industrial” (8), “minérios” (10), “chaminés” (14), “máquinas” (14) ou “petróleo” (14) e com expressões da área do Direito como “direitos humanos” (8) ou “Contratos de Risco”(9).

Também o folheto de Abraão Batista A terra é uma nave e você o passageiro (1996) ilustra, desde o título, a vertente ambientalista da literatura de cordel dos últimos vinte anos. Como acontece em folhetos de outros autores, alguns publicados na década de 80 (Essa tal de ecologia ou a ecologia e as ciências naturais), “ecologia” é já a principal palavra-chave, em relação à qual devem ser entendidas todas as outras das áreas da natureza, do ambiente e do ambientalismo.

A Terra é uma nave e você o passageiro constitui um manifesto poético em defesa do meio ambiente e da natureza que se vale explicitamente dos conhecimentos de uma ciência, identificada logo no primeiro verso:

Sobre a Ecologia
permita-me descrever
dizendo como ela é
se é ciência para valer
para que você, na terra,
possa ela merecer”.[12]

Num discurso oralizante, fluido e desafetado, o poeta enumera e comenta, com os conhecimentos de um especialista em ecologia e ambiente que sabe falar para o leitor comum, alguns dos mais importantes problemas ambientais da sociedade brasileira (e não só): a poluição das águas, a deterioração do ar, a erosão dos solos, os problemas associados às irrigações e à construção, as queimadas, a destruição das florestas, a caça, a extinção contínua de espécies animais e vegetais, etc.

Abraão Batista não se limita a censurar “O homem que se considera/ um rei de grande poder”, [13] “o homem perverso”, que, “destruindo o que existe/ a si próprio vai matar”.[14] Também aconselha e propõe alternativas que contrariam ideias feitas, notando, por exemplo, que “Um cemitério deve ser/ em lugar seco e ideal/ apontado por um geólogo/ se não o povo se dará mal/ beber água de defunto/ é um assunto ilegal”[15] ou que o prefeito de cada região “Devia mandar fazer/ sério reflorestamento/ com as árvores ali nativas/ sem guardar constrangimento/ dentro em pouco nós teríamos/ um grande empreendimento”.[16]

Este cordelista, para quem “o bicho homem é bicho” e “bicho também é gente”,[17] assume uma posição em tudo de acordo com os princípios do ambientalismo moderno. Animais, vegetais, animais, o Homem, toda a natureza, beneficiam dos mesmos privilégios:

Os bichos que tem na terra
são chamados de animais
sejam os rastejantes
ou de portes colossais
seja homem ou inseto
todos eles são iguais.

Nascem, vivem, reproduzem
com o poder da perfeição
todos nascem de um ovo
a partir de uma união
até mesmo os vegetais
pendem nesta direção[18]

Abraão Batista tem em vista um leitor que precisa de ser informado e educado em termos de comportamentos ecológicos básicos, não só no que tem a ver com as práticas das cidades como também no que se relaciona com hábitos domésticos. O poeta tanto comenta a instalação de aterros sanitários perto de rios como os problemas associados ao “lixo caseiro”, que “atrai insetos/ cobra, moscas, que são/ bichos que levam nas patas/ sarna, doenças, sezão!/ Muriçocas e percevejos/ tapurus, degradação”[19]; e ora nota e explica, ora exorta o leitor a seguir os seus conselhos: “Evite que as crianças/ façam do lixo pousada/ brinquem na lama do esgoto/ ou com água empossada/ lá está doença certa/ com a mortalha cortada”.[20]

O poeta fala de casos que têm a ver com o quotidiano do leitor, mas não deixa de lembrar, ao longo do folheto, que se inscreve no pensamento holístico: o comportamento de cada pessoa tem implicações no ecossistema global. Agredir uma parte do sistema significa afetar todas as outras partes:

A terra é uma nave
de perfeita harmonia
tudo está ligado
na mais fina filosofia
só há choro na terra
se o homem a desafia[21]

Estamos no âmbito dos direitos dos animais, na relação entre vida e bem-estar. Os animais não-humanos, segundo o autor, devem ser protegidos por uma ética animal que qualquer pessoa pode pôr em prática:
Ensine pros seus filhos
não matar os passarinhos
nem tornar-se assassinos
doutros seres e bichinhos
vê: todos são criaturas
criadas sob carinhos[22]

Daí o cenário que Abraão Batista apresenta ao seu leitor, para o convencer de que até um pássaro é um ser senciente (sente dor, prazer, conforto, ansiedade…):

Pensou se alguém de fora
pegar seu filho para cantar?
Ou por achá-lo bonito
possa ele o seqüestrar
levando para outras terras
bem distantes, além do mar?![23]

O poeta quer que os leitores se confrontem com as experiências subjetivas vividas pelas aves aprisionadas por humanos insensíveis, sugerindo-lhes que estabeleçam uma analogia:
Já pensou ver seu filhote
cantando numa prisão
semelhante às gaiolas
que se fazem no sertão
ou ver a sua mulher
ser vendida num feirão?!”[24]

A ecotopia que Abraão Batista propõe não implica necessariamente o abandono da cidade, que ao longo da história tem sido utilizada como símbolo de corrupção, perversidade e doença. Para ele, a cidade pode ser um lugar de realização humana, um paraíso de harmonia e serenidade. Se houver uma boa articulação entre a tecnologia ecológica e a preservação da natureza, é possível criar um jardim do Éden na cidade:

As árvores, por sua vez
são de grande utilidade
além de melhorar clima
embelezam a cidade
a poeira fica nas folhas
pra nossa felicidade.

[…]

Já pensou se nossas ruas
embelezassem os lares
com frutos de todos tipos
e as praças fossem pomares
cheias de plantas frutosas
que perfumassem os ares?[25]

Há um ideal de vida urbana que depende de uma ligação à natureza e, em especial, à árvore e à vida saudável e intensamente cromática, aromática, sonora e cinética que em redor dela se cria:

Manga-rosa, jaboticaba
jaca, amora, fruta-pão
goiaba e macaúba
jatobá, pinha e mamão
pra nas praças se juntarem
bentivis, rola e pavão…

Se nossas ruas povoassem
fruta-conde e buriti
todo tipo de mangaba
caju, pêra e sapoti
ruas e praças pomares
como em sonho eu já vi!...[26]

O tópico do pássaro roubado à vida natural, fechado numa gaiola e vendido para satisfação de pessoas insensíveis, que os poetas criticam pela sua crueldade e incapacidade para apreciar a natureza livre, aparece com muita frequência nestes cordéis. Abraão Batista, como vimos, não ignora este problema, que elege como uma das provas da falta de sensibilidade ecológica de grande parte da população brasileira.

O motivo do pássaro preso é, para Luciano Carneiro de Lima, o tema exclusivo do folheto Respeite a Lei da natureza, que começa por atrair o leitor através de um humor provocatório mas ao mesmo tempo socializador (pelo que tem de imprevisto e prazenteiro):

Amigo, se você tem
um passarinho na gaiola
só pra cantar pra você
porque isso lhe consola
solte o bichinho na floresta
e pra fazer sua festa
compre uma radiola[27]

Nos últimos anos, a literatura de cordel tem continuado a promover a cidadania ecológica e pode até dizer-se que diversificou as suas estratégias discursivas, de promoção e de ação.

Não faltam folhetos que incentivam os leitores a investir em comportamentos de preservação e de melhoria do meio ambiente, centrando-se, às vezes, em problemas mais ou menos específicos, como o da poluição de um rio ou de uma serra, e elogiando casos de sucesso de proteção ambiental que envolvem populações ou pessoas individuais; não faltam as iniciativas que juntam cordelistas e associações de promoção da natureza e do ambiente, como acontece no folheto APA – Chapada do Araripe. Preservar é preciso, que se situa na linha interventiva que vem da década de 90, na qual há até poetas que, pensando na internacionalização do cordel, escrevem em inglês; e não falta a ação do Estado, através do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA), que tem promovido a produção e divulgação de cordéis ecológicos.

Há, paralelamente a estes cordéis e às ações de divulgação junto do público adulto, cada vez mais autores que têm explicitamente em vista o público infantil e juvenil, e a escola também recorre ao cordel para formar cidadãos leitores capazes de ler o mundo natural e social a partir da literatura.

Dirigir cordéis às crianças e aos jovens não promove apenas a leitura, a evasão e o conhecimento em áreas específicas. Também favorece a educação para o respeito pelas culturas orais e populares, e a capacidade de aí encontrar ensinamentos e valores que a sociedade moderna ignora. Ao integrar o cordel no cânone da literatura lida nas salas de aula, a escola está a pôr em prática essa grande virtude da literatura de cordel brasileira: dar voz aos menos favorecidos economicamente e assim contribuir para a transformação da sociedade. Os alunos que se reconhecem nesta mundividência oral e popular vêem a sua cultura valorizada e, desse modo, sentem-se capazes de participar nas atividades do grupo e de interagir com os colegas de outros universos socioculturais. Estes, por sua vez, aprendem naturalmente a aceitar a diferença e a respeitar as formas de expressão e as ideias daqueles que estão afastados dos centros de poder económico e político.

É neste espírito de educação multicultural que os currículos programáticos das disciplinas de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira contemplam, explícita e implicitamente, o ensino do cordel, que aparece ao lado de géneros textuais da tradição popular há muito contemplados nos programas escolares e em orientações curriculares (o provérbio, a adivinha, a lenda, etc.).

As ações dos cordelistas em escolas e a integração do cordel em atividades curriculares e provas escolares contribuem diretamente para o impacto positivo dos cordéis do ciclo da natureza e do ambiente. Os poetas desafiam o leitor a olhar para a percepção própria das práticas quotidianas que mais se refletem negativamente no ambiente, a avaliar as consequências dessas ações individuais no contexto global e a ver a natureza como uma ecotopia e um lugar de conhecimento e de espiritualidade.

As Crianças do Brasil defendendo a Natureza (2000), de Francisco L. Quental e Klévisson Viana, por exemplo, é um folheto que se situa na linha de Patativa do Assaré e Abraão Batista. Condena o ser humano pelo seu desrespeito e ignorância em relação a tudo o que constitui a natureza, e exalta as belezas e o funcionamento integrado de todos os seres vivos e de todos os sistemas naturais, cuja capacidade para se auto-regular e para preservar a estabilidade da Terra está a ser ameaçada pelo Homem:

Meninada, não esqueça,
isto tudo é fascinante,
a Natureza é fantástica,
primorosa e deslumbrante,
a gente mata e destrói,
por ser tolo e ignorante[28](16)

Mas não são apenas os conteúdos do “cordel infantil” que se adaptam ao público infantil e juvenil. Também a forma, o grafismo e a ilustração destes cordéis acompanham as tendências da moderna literatura infanto-juvenil. Como dizíamos acima, o folheto infantil mantém-se, no essencial, fiel ao paradigma tradicional, mas vemos cada vez mais capas com ilustrações a cores e num tipo de papel mais resistente, e também encontramos folhetos ilustrados no interior e com formatos que ultrapassam as medidas mais comuns (o mesmo acontecendo no número de páginas, que muitas vezes excede a média de 8 a 16).

Este cordel, chamado, por vezes, em subtítulo, cordel ilustrado, é vendido, em grandes números, em feiras, quiosques, encontros acadêmicos, festivais de folclore e outras festas populares. Mas tanto a sua venda como a sua divulgação, que beneficia das novas tecnologias na sala de aula, também se fazem nas escolas, algumas das quais têm coleções de cordel, às vezes em quantidades que nos permitem falar praticamente em cordeltecas.

Um bom exemplo de cordel infantil ilustrado é Uma aventura na Amazônia (2008), de Marcos Mairton, que narra o caso de uma criança que foi salva e acolhida temporariamente por índios, depois de o barco em que seguia com os pais ter sofrido um acidente. Daniel, o pequeno herói desta narrativa, durante o tempo em que vive com os índios, não se esquece da sua família, mas não adota uma posição etnocêntrica. Enquanto esperava pelo barco que por ali passava uma vez por mês, integrou-se no modo de vida da tribo e aprendeu a respeitar a natureza, a conhecer os animais, a ver-se numa relação de igualdade com os outros seres, cuja dignidade e direitos passou a saber reconhecer:

Aprendeu nomes de aves,
de peixes e animais.
Cada dia que passava
aprendia um pouco mais[29]

Esta aprendizagem não se perdeu com o regresso de Daniel à casa. O efeito prático foi imediato, já que ele devolveu à natureza o macaco-aranha que o tio lhe oferecera. Daniel percebeu que a sua situação, longe da família, era semelhante à desse animal, por cuja perda de liberdade ele fora responsável. Mudou o seu pensamento em relação à natureza e ao ambiente, e mudaram também os seus comportamentos. Daniel, habituado pelos pais a apreciar os diferentes tipos de cultura, as paisagens humanizadas e o mundo natural, não tinha, todavia, uma consciência verdadeiramente formada acerca do valor moral da natureza. A experiência de Daniel, transmitida num relato que combina aventura e conhecimento científico, cultura e cidadania, palavra e imagem, contraria assim a desproporção que parece existir entre as ideias e os atos ecológicos daqueles que se consideram ambientalistas. E não deixa de ser significativo que na mudança de paradigma de Daniel esteja uma tribo de índios, cujo modelo de relacionamento com a Terra tem inspirado a redefinição, no Ocidente, do binómio Homem-natureza.

Um outro aspecto que sobressai neste folheto é o da correção gramatical, tanto no plano linguístico (lexical, léxico-sintáctico, morfossintáctico, ortográfico e acentuação) como no da pontuação. Percebe-se que Marcos Mairton submete os seus cordéis a uma revisão cuidada, com o objetivo de evitar gralhas e erros gramaticais que prejudicariam o valor educativo dos textos, tendo em conta o uso pedagógico-didáctico a que se prestam:

A criança de hoje em dia
na escola cedo aprende
as coisas da Natureza,
e por isso compreende
que os animais da mata
a gente nunca maltrata,
nem tampouco a gente prende.

Mesmo assim, ainda existem
homens mal acostumados,
que pegam os animais,
na mata capturados,
e levam para a cidade
pra viver sem liberdade,
tristes e engaiolados[30]

Este compromisso com o português padrão escrito não diminui a oralidade do texto, nem afeta a ligação do autor à família dos poetas populares brasileiros, de que ele é reconhecidamente herdeiro. O cordel de Marcos Mairton não se considera superior ao de um poeta como Patativa do Assaré, cujas obras escritas reproduzem, tanto quanto possível, a fala típica do sertanejo não escolarizado. Mairton, como muitos outros cordelistas oriundos da cultura escolar, sabe que todas as variedades linguísticas do cordel são válidas, desde que correspondam naturalmente aos sistemas e subsistemas dos autores, e desde que obedeçam à arte poética tradicional. Mas esta adoção dos códigos da poesia popular brasileira não resulta, neste e noutros autores, em cristalização e banalidade. Este cordel diversifica a ética, a estética e a pragmática do poema oral e dos folhetos. É uma poesia escrita para ser dita que se coloca assumidamente do lado da língua popular e, ao mesmo tempo, da língua da escola.

Comparar, na sala de aula, a expressão de um Patativa do Assaré com a de Mairton permitirá sempre estabelecer distinções e aproximações essenciais entre o popular e o culto, o oral e o escrito, a tradição e a criação; permitirá deixar evidente que a poesia se rege por leis que diferem das da linguagem não-literária; e permitirá mostrar aos alunos que pode haver muito interesse literário, humano e social numa obra em que, à partida, não esperaríamos encontrar senão ingenuidade e pobreza estética e ideológica.

A mensagem destes folhetos é clara e envolve múltiplos aspectos em que todos somos chamados a intervir, da educação à religião, à ciência e à sociedade. O cordel pede-nos que nos despojemos de alguns excessos materiais e contemplemos a natureza, para simplificarmos as nossas vidas e atingirmos uma consciência filosófica e ética mais profunda; e exorta-nos a assumir, individual e coletivamente, mais responsabilidade na gestão dos recursos energéticos e no relacionamento com a natureza e o ambiente. Deus, o ser humano e todos os outros seres aparecem como uma comunidade cósmica, cuja relação deve ser de entendimento e reciprocidade, não de domínio e exploração.









Notas


[1]. A. T. dos Santos, O Grito do Ipiranga, São Paulo, Editora Prelúdio, 1952, p.4.

[2]. P. do Assaré, Patativa do Assaré: Uma Voz do Nordeste. Introdução e seleção de Sylvie Debs. 3.ª ed., São Paulo, Hedra, 2001. p. 126.

[3]. P.  do Assaré, O meu livro, s.d., p.1.

[4]. P. do Assaré, Patativa do Assaré: Uma voz…, op. cit., p.122.

[5]. P. do Assaré, O  meu livro, op. cit., p.4.

[6]. P. do Assaré, “A terra é natura”, in Congresso Andes. Homenagem aos 90 anos do poeta Patativa do Assaré, Fortaleza, Arte Visual, 1999, p. 9.

[7]. Ibidem, p. 9.

[8]. A. Porfírio, Não mate a natureza, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1979, p. 6.

[9]. Ibidem, p. 5.

[10]. Ibidem, p. 4.

[11]. Ibidem, os números entre parênteses indicam a página onde se encontram os termos citados.

[12]. A. Batista, A Terra é uma nave e você o passageiro, 2.ª ed. Juazeiro do Norte, s.e., 1996, p. 1.

[13]. Ibidem, p. 3.

[14]. Ibidem, p. 4.

[15]. Ibidem, p. 6.

[16]. Ibidem, p. 11.

[17]. A. Batista, O café literário dos bichos na XXI Feira do Livro de Brasília, Brasília, s.e, 2002, pp. 1 e 8.

[18]. A. Batista, A terra é, op. cit., p. 3.

[19]. Ibidem, p. 8.

[20]. Ibidem, p. 8.

[21]. Ibidem, p. 4.

[22]. Ibidem, p. 12.

[23]. Ibidem, p. 13.

[24]. Ibidem, p. 13.

[25]. Ibidem, p. 7.

[26]. Ibidem, p. 7.

[27]. L. C. de Lima, Respeite a lei da natureza, Crato, Academia dos Cordelistas do Crato, 1992, p. 1.

[28]. F. L. Quental & K. Viana, As crianças do Brasil defendendo a natureza, Fortaleza, Tupynanquim Editora, 2000, p. 16.

[29]. M. Mairton, Uma aventura na Amazônia, Ilustrações de Rafael Limaverde, S.l., Edições Imeph, S.d. [2008], p. 35.

[30]. Ibidem, p. 8.