Juazeiro do Norte: entre Benditos e Mauditos...



Mylène Contival

____________________________  

♦ A Sociedade dos Cordelistas Mauditos de Juazeiro do Norte
♦ Uma renovação do cordel...

♦ Tradição e reação no campo do cordel

♦ A profanação dos Mauditos




Índice


















Topo

Topo


Topo


Topo
Topo


Topo


Topo


Topo


Topo


Topo


Topo


Topo


Topo

Juazeiro do Norte, cidade interior do sul do Ceará, possui uma particularidade cultural própria. Terra dos índios Cariri, terra do Padre Cícero, a cidade é também o foco onde se desenvolveu o que conhecemos como literatura de cordel. Se, no ano 1888, um certo Sílvio Romero preconizou o desaparecimento dessa literatura na sua publicação Estudos sobre a poesia popular do Brasil,[1] podemos hoje verificar como se tinha equivocado.[2] Com efeito, o cordel ainda está presente no Brasil inteiro e cada vez mais pesquisas académicas a seu respeito são realizadas no país e no exterior. O cordel não desapareceu e continua bem vivo, adaptando-se continuamente à sociedade contemporânea e às novas tecnologias da informação e da comunicação. A literatura de cordel como prática cultural é portanto um exemplo apropriado para analisar as noções de cultura popular e erudita assim como os conceitos de tradição e modernidade. Através de um movimento artístico de jovens poetas cordelistas, que nasceu em Juazeiro do Norte no ano 2000, vamos ver como estes conceitos continuam a alimentar um debate activo e muito polémico!

A Sociedade dos Cordelistas Mauditos de Juazeiro do Norte

No dia 1 de Abril de 2000, um grupo de poetas, acadêmicos e músicos[3] apresentou o movimento da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, com a publicação de 12 cordéis intitulados Agora são outros 500. O tema estava em sintonia com o aniversário dos 500 anos da descoberta do Brasil. Enquanto todas as média oficiais se voltavam para as festas comemorativas, os Mauditos, adotando outro ponto de vista, propuseram a desconstrução da leitura oficial da história brasileira e lançaram um olhar crítico sobre o processo de descolonização.[4]

imagem
Membros da Sociedade dos Cordelistas Mauditos.
Fotografia tirada no 1° de Abril de 2000

O objectivo dos Mauditos é tanto artistíco quanto político. Conscientes e lúcidos, consideram o cordel um meio artístico que lhes permite afirmarem-se politicamente. Expõem o seu  projeto num Manifesto, ampliando a carga ideológica do movimento:

A nossa comunicação se dá através da poesia de cordel – Traço de nossa identidade nordestina. Somos contra o lugar comum, combatemos a globalização que impõe signos massificantes e uniformiza os comportamentos e estéticas: Nosso movimento pretende, sob uma ótica intertextual, utilizando vários códigos estéticos, redimensionar a literatura de cordel para um campo onde as linguagens sejam possíveis. Não somos nem erudito nem popular: somos lingua-gens. Entramos na obra porque ela está aberta e é plural. Somos poetas e guerreiros do presente. A poesia escreverá enfim outra história. Salve! Patativa de Assaré e Oswalde de Andrade!

O manifesto afirma o cordel como uma bandeira identitária e aponta logo os problemas que os Mauditos querem defrontar: a reducão do folheto a algo meramente popular e a uniformização do discurso poético provocada pela globalização. O tom é incisivo e crítico – “Não somos nem erudito, nem popular: somos lingua-gens” e inicia um debate de fronteiras inédito nesse campo, ou seja um debate que vai questionar os conceitos e os limites entre popular e erudito. Até então, os cordelistas sempre se tinham declarado “poetas populares”. Os Mauditos situam-se no “entre-lugar”, ao retomar um termo de Hommi K. Bhabha,[5] na fronteira entre dois mundos historicamente divididos. Assim, ao terminar o Manifesto, valorizam conjuntamente dois grandes representantes de mundos tradicionalmente opostos, o popular e o erudito: “Salve! Patativa de Assaré e Oswalde de Andrade!”

Uma renovação do cordel...

 Por causa de uma certa tradição instaurada, as temáticas dos folhetos foram limitadas desde o início das publicações. O cordel, para ser considerado “verdadeiro”, devia falar da vida no sertão, do Padre Cícero, de histórias anedóticas engraçadas, de religião ou de alguns temas políticos da actualidade, além de ser escrito por pessoas ditas do “povo”, e em geral, analfabetas.[6] É por essa razão que a Sociedade dos Cordelistas Mauditos constata:

Vejamos: alguém elegeu um grupo de donos para o cordel em geral, pessoas do campo e de poucas letras, em seguida, os cordelistas letrados, que hoje defendem “uma verdade autêntica”, tematizam sobre coisas que falaram esses camponeses poucos letrados. Para manter o que eles chamam de autenticidade, devem, portanto, utilizarem-se da mesma linguagem de outrora...[7]

Os Mauditos vão questionar esse “alguém” que elegeu uma norma para o cordel e a maneira como foi qualificada de “popular” essa produção cultural.Segundo eles, esta categorização implica um juízo de valor depreciativo. O posicionamento do grupo demonstra como a historiografia, baseada num discurso tradicional imposto, constrói verdades que apresentam os cordelistas como populares, ágrafos, simples ou rudes. Este debate remete-nos para a noção de “povo”. Povo é uma noção complexa e talvez o mais fácil seja definí-la pela negativa, em oposição à elite.[8] Quando atentamos no perfil dos cordelistas de hoje e no dos Mauditos em particular, vemos que muitos são professores, outros advogados. Eles já não correspondem à definição do cordelista típico, poeta pouco letrado. O cordel desenvolveu-se através da transmissão oral, mas a sociedade, ao transformar-se, vê a escrita implantar-se e democratizar-se cada vez mais e oferece às pessoas mais acesso ao ensino. Os Mauditos realçam esta modificação e denunciam um dos absurdos da tradição que é manter o cordel autêntico como produção de uma pessoa pouco literata, uma definição que eles denunciam como descontextualizada.

Para os Mauditos, assim como para vários estudiosos da cultura, a noção binária de cultura popular e erudita, é considerada uma noção construída. Retomam um argumento de Marilene Chaúi num texto intitulado Cultura e democracia.[9] A filósofa brasileira, ao descrever a evolução do conceito de cultura, demonstra como o conceito de cultura popular foi desenvolvido pela elite, ao longo do tempo, numa retórica política. Ao observar, sob uma perspectiva marxista, a evolução histórica do conceito de cultura, ela opõe a comunidade à sociedade e recorda que vivemos num regime capitalista que tem por marca principal o fato de ser uma sociedade de classes. Nesta sociedade opera-se, além da divisão social, uma divisão cultural denunciada por Marilene Chauí:

A marca da sociedade é a existência da divisão social, isto é, da divisão de classe, a divisão de classe institui a divisão cultural. Esta recebe nomes variados: pode-se falar em cultura dominada e cultura dominante, cultura opressora e cultura oprimida, cultura da elite e cultura popular.[10]

Os Mauditos, ao reiterar essa visão, reivindicam os aspectos positivos da dita cultura popular, e afastam os elementos que repetem a ideologia contra a qual lutam e se afirmam:

[...] devemos preocupar-nos em não cair no senso-comum, no pragmatismo pueril encontrado neste popular. Nisso concordamos mais com a Marilena Chauí quando diz que muito do que é popular foi ideologicamente imposto, do que com Ariano Suassana, quando reserva à cultura popular um santuário de pureza.[11]

Para os Mauditos, a rigidez do discurso tradicional desviou as reflexões deste campo e amputou muitas potencialidades da literatura de cordel:

Até Einstein a física clássica só conhecia três dimensões. A noção de espaço-tempo acrescentou a esta disciplina a quarta dimensão. Os teóricos na discussão do cordel, ainda não conseguiram nem chegar à terceira dimensão do debate, permanecem na clássica visão dual entre o que é popular e erudito, restringindo aliás, este tipo de poesia popular e muitas vezes, a ela negando seu valor necessário.[12]



O cordel foi sempre uma janela aberta para a realidade, uma escrita anedótica e jornalística. Os poetas Mauditos, enquanto poetas militantes, tinham consciência que muitos fatos de sociedade deviam ser denunciados e que o próprio cordel estava em constante processo de transformação. A sociedade dos cordelistas Mauditos trouxe algumas temáticas importantes e actuais para o cordel. Demonstraram assim que a adequação à sociedade contemporânea é uma necessidade da literatura de cordel. Não faz sentido para os Mauditos continuar com os mesmos assuntos; trazem então para o cordel novas temáticas relacionadas com as questões de identidades, como a raça, a classe e o gênero. Abrem o cordel a “diferentes singularidades”.[13]

Os poetas Mauditos apropriam-se o cordel não só quando tratam essas novas temáticas mas também quando focam assuntos antigos a partir de um novo prisma: “não estamos ancorados na mesma perspectiva do imaginário popular que eles (os tradicionais) perpetuam. Podemos até falar do cangaço e do Padre Cícero mas com outra perspectiva ...”[14] Tomemos o exemplo do cordel de Fanka,[15] Padre Cícero e a vampira, ou ainda A história de Joca e Jorez de Fanka e Salete Maria :


imagem
   Xilogravura do cordel
O Padre Cícero e a vampira
Vou contar uma história
Ocorida no sertão
Se vocês achar imprópria
Eu não faço objeção
Afinal o imaginário
Popular é o cenário
Para ampla discussão

Se quiser você porém,
Debater mais a questão
O melhor que se convém
É fazer outra versão
Ou quem sabe de repente
se quiser fazer repente
eu aceito a condição.

Do contexto, eu lhe digo
Tinha fé, religião
Tinha rico e mendigo
E o Padim Ciço Romão,
Este era um análitico
muito sábio e político
Poliglota do sertão!



imagem
   Xilogravura do cordel
História de Joca e Juarez
Juarez era um senhor
Devoto do meu padim                      
Trabalhava com ardor
Cultivando seu jardim
um dia o cão atentô”
E Juarez se apaixonou
Por Joca de Manezim!

Isso se deu em meados

De mil novecentos e seis
Naquele tempo veado
Era bicho que Deus fez
home não ama ôtro home
Senão vira Lobisomem”
Disse o padre, certa vez.[16]

Graças aos Mauditos, preocupações feministas, reivindicações do direito à liberdade sexual ou ainda a denúncia do racismo fazem parte das novas narrativas do cordel. Também se afirmam novos olhares sobre a história de Juazeiro, como no cordel de Salete Maria sobre A Beata Maria de Araújo, Maria de Araújo e o seu lugar na história ou A beata Beat Cult,  mulher a quem  aconteceu o milagre:


imagem
   Xilogravura do cordel
Maria de Araújo e seu lugar na história ou A beata Beat Cult
Beata, pobre, iletrada
Desse enredo não fujo
Que história mal contada!
Ela não foi figurante
Era estrela fulgurante!
Da hóstia ensangüentada[17]


Estes poetas utilizam uma linguagem de acordo com a época, usam conscientemente a intertextualidade, e empregam gírias e calão. Tentam deixar intacta a métrica tradicional, ou seja, a sextilha, a setilha ou a décima, e defendem a continuidade da rima que confere ao cordel o carácter oral e musical que eles consideram fundamental. Também fazem novas experiências com as artes plásticas que ilustra o folheto, usando a fotografia, a colagem, etc.,[18] em vez de utilizar apenas a xilogravura:


imagem
Capa do Cordel do amor perdido
de João Nicodemos,
desenho feito a lápis



imagem
Cordel Terrorista é quem nos USA com desenho de tipo grafíti


imagem
Capa usando a técnica de infogravura
de Hélio Ferraz


imagem
Capa com fotografia, Salete Maria


Tradição e reação no campo do cordel

O uso irreverente do cordel por esses jovens poetas despertou várias reações, tanto positivas como negativas, no bojo do público e também no meio dos outros cordelistas. Muitos criticaram o movimento e denunciaram a sua produção poética como não sendo cordel. Salete Maria Da Silva, membro dos Mauditos, reage:

Na verdade, não sou exatamente eu ou os Mauditos que nos apresentamos como os “diferentes”, são os “iguais” que nos acusaram de não saber fazer cordel ou trair o cordel tradicional. Muitos sustentam que não fazemos literatura de cordel porque estamos quebrando tabus e questionando dogmas do cordel. Mas isto já é tão previsível ...[19]

Estes ataques tinham sido previstos pelos cordelistas da nova geração. O próprio nome do movimento, Mauditos, é uma antecipação das críticas que vão ter que enfrentar. Eles são “mau-ditos” porque sabem que o cordel que propõem não corresponde à visão clássica, que não se alinha com toda uma tradição:

Nesse sentido, para esses professores da clássica visão linear, nós jovens poetas fazemos um cordel mau feito, porque não compartilha toda uma tradição. Para estes, representar a tradição seria, sobretudo, repetir costumes, hábitos e conceitos de um contexto passado.[20]

Ao denominarem-se Mauditos, ironizam a posição dos outros. Num artigo intitulado “Tradições que se refazem”, Ria Lemaire interessa-se pelo significado do conceito de tradição e recorda a sua origem etimológica, relacionada com a transmissão de saberes, tendo “[...]como conotação primeira a de intensa e contínua atividade”.[21] O problema do conceito de tradição é assim apresentado por ela como sendo intelectual e epistemológico:

esse termo que denota originalmente e basicamente uma atividade incessante, uma procura, invenção e reinvenção contínuas e que ainda hoje é ressentido, assim como o mostra o neologismo trader! [...] [esse termo] se tornou também, no mundo moderno, e sobretudo no discurso dos intelectuais, o equivalente a atraso, imobilismo e conservadorismo sob a forma do substantivo da tradição. É nesse sentido que o discurso científico sobre o cordel utiliza o termo tradição para definir e caracterizar o folheto. É com o argumento de ele ser uma tradição arcaica, que tem de ficar pura e autêntica, que os eruditos rejeitam como impuros e desviantes as formas e expressões do folheto que não correspondem ao modelo puro, arcaico, parado no tempo.”[22]

Ao teorizar a questão da tradição, Ria Lemaire demonstra o paradoxo existente entre o que designa originalmente essa noção e o que ela significa de fato. Recorda que a dita tradição que invocam os opositores aos Mauditos para descredibilizá-los, é, já, algo que não é totalmente o mesmo do que era originalmente. Tal como os Mauditos, considera que a tradição está sempre em movimento e recorda que no contexto do cordel a primeira grande mudança foi a revolução da escrita. O cordel, de criação oral, passou para a fixação no papel, apropriou-se da nova tecnologia que representava então a escrita. Continuou com os traços da oralidade e da musicalidade mas já não pertencia somente a uma tradição oral. Transformava-se numa produção híbrida, com várias influências, atingindo um público diferente. Se a tradição encontra a sua essência no movimento e no dinamismo, a fixação de uma tradição, do ponto de vista da nova geração de cordelistas e de Ria Lemaire, permite a alguns exercer uma certa supremacia e ter o poder de excluir, dizer o que é ou não é.

O aparecimento dos Mauditos em Juazeiro do Norte suscitou, como já referimos, reações de exclusão. O cordelista que contribuiu muito para a divulgação do cordel nos anos 90, Abrãao Batista, tinha sido o convidado especial para o lançamento dos doze cordéis inaugurais do movimento, e declarou:

Eles são, na maioria, jovens. É necessário que entendam que a linguagem de cordel não é uma linguagem de boca-suja. Não adianta querer jogar vanguarda, trazer um coração de porco para uma criatura humana. Há rejeição. O cordelista é espiritualista, é religioso. A linguagem do cordel é nobre, ingênua, inocente e pura. Muito embora possa ser apimentada e irônica.[23]

Apesar de considerar “estimulante o renascimento do interesse pelo cordel”,[24] Abrãao Batista não vê com bons olhos a liberdade que esses jovens poetas tomaram com o cordel. Ele arboresce então um discurso tipicamente “tradicionalista” (no senso comum), quase reacionário, ao falar de “rejeição”, “boca-suja”. Critica justamente o lado vanguardista dos Mauditos, diminuindo-os, descredibilizando-os, ao invocar a sua juventude. O poeta considera-os jovens provocadores que não entendem nada da tradição e portanto nada do cordel.

A profanação dos Mauditos

Para analisar e pensar o discurso de Abrãao Batista, achamos interessante basear-nos no ensaio Profanações deGiorgio Agamben que aborda o conceito de sagrado e de profano. O que é sagradoé o que pertence ao domínio dos deuses, o que o humano não pode tocar: “Consagrar (sacrare) era o termo que designava a saída das coisas da esfera do direito humano, profanar, por sua vez, significava restituí-las ao livre uso dos homens”.[25] Podemos considerar que o discurso de Abrãao Batista faz do cordel algo sagrado, algo que não pode ser tocado. De certa forma, o cordelista, em nome da tradição, consagra o cordel que os Mauditos profanam.

Os Mauditos, além do manifesto, respondem às críticas e explicam as suas escolhas: “Ao passo que essa realidade muda, modifica-se uma rede de significados [...] Muda as temáticas, muda os conceitos, muda as representações do real. Há uma nova resignificação do real.”[26] Ou seja, esses poetas resignificaram o cordel dentro do real, restituiram-no ao livre uso dos homens”,[27] profanaram-no no sentido de Agamben. O filósofo italiano explica: “A passagem do sagrado ao profano pode acontecer também por meio de um uso (ou melhor, de um reuso) totalmente incongruente do sagrado. Trata-se do jogo.”[28] O jogo e a brincadeira, que levam à ironia e à subversão, são estratégias dos Mauditos para se demarcarem do cordel tradicional e promoverem novos usos dessa literatura. Utilizam o cordel como objecto de experimentação política e artística, brincam com as palavras e com as sonoridades, atacam os preconceitos.

Eu bato o pé e beato
Beato batendo o pé
Batendo o pé eu desato
No ato eu boto fé
Me bato em penitença
Punindo a história pensa
Que torta quebra meu pé
Batendo palma beato
Batendo bolo também
Batendo pano no ato
Batendo roupa e xerém
Beato meu beabá
Beato até bodejá
Beato como ninguém

Beato e bato punheta

Bato baralho e beato
Beato e bato marreta
Bato carteira e beato
Bato sentado e em pé
Porém não bato em muié
Nem bato meu pau no gato
Beato e bato uma bola
Bato as asas e beato
Beato e vou a escola
Construo casa e beato
Beato pedindo esmola
Beato e bato a cachola
Beato e tiro retrato...[29]


Seguindo a reflexão de Giorgio Agamben, o que não pode ser usado “ acaba, como tal, entregue ao consumo ou à exibição espectacular [...] a impossibilidade de usar tem o seu lugar típico no Museu”.[30] Podemos considerar então que se não fossem os Mauditos a revitalizar o cordel, este ter-se-ia tornado uma manifestação folclórica sem outro interesse do que repetir e mostrar o “tipinho folk”.[31] Isso teria acabado por descontextualizar e fixar totalmente o cordel, ao fazer dele um objeto de museu intocável e não uma janela que dá para a realidade, a sua razão de ser.

Por fim, Agamben refere: “a profanação implica, por sua vez, uma neutralização daquilo que profana.”[32] Graças ao jogo, a profanação devolve ao uso comum os espaços confiscados num processo que “desativa os dispositivos de poder.”[33] Podemos considerar que graças aos poetas Mauditos, o cordel deixou de ser prisioneiro da definição fixada pela dita tradição. Ao profanar o cordel os Mauditos assumem a sua missão libertadora: “ A literatura não é propriedade privada de eleitos, iluminados, mas matéria de linguagem para quem assim a desvende.”[34]



Conclusão

Apesar de serem altamente polémicos, os Mauditos têm o mérito de criar e abrir novos caminhos para a reflexão literária e teórica. Ao desconstuir o cânone, constroem outro que consideram mais justo. Graças ao discurso que criam, permitem a valorização de alguns poetas que até agora tinham sido esquecidos pela historiografia oficial e contribuem então para a criação e a manutenção de uma memória mais justa. Ao fazer a crítica da oposição sistemática entre popular e erudito, querem escapar ao sectarismo e reinvindicar maior liberdade artística.

Não podemos deixar de realçar a influência que teve e tem esse movimento sobre os novos poetas de Juazeiro do Norte. Alguns, como Maria Eli ou Sandra Alvino[35] assumem as influências dos Mauditos na sua poesia. Foram seduzidas pela liberdade de tom e a variedade de temas tratados.

Ao criticar alguns aspectos da dita tradição, ao criar novas pesquisas e ao elaborar novos olhares sobre essa literatura, esses poetas e pesquisadores permitiram um rejuvenescimento do cordel, na medida em que fizeram eclodir um debate real e profundo. As vozes dos poetas fizeram-se ouvir na sua pluralidade permintindo então a descoberta de novas potencialidades.





Bibliografia
  • AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo:  Boitempo Editorial, 2007.
  • ALVES DE MELO, Rosilene. “Lavradores de versos: corpos, papéis e máquinas na editoração do cordel em Juazeiro do Norte”. In Simone Mendes (org.), Cordel nas Gerais, Oralidade, mídia e produção de sentido, Fortaleza: Expressão gráfica, 2010.

  • BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. 2ª ed., Belo Horizonte: UFMG, 2003.

  • BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. Europa, 1500-1800. 2ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

  • CANCLINI, Nestor. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 3ª ed., São Paulo: Edusp, 2000.

  • DA SILVA Salete Maria, PEREIRA DOS SANTOS, Francisca. Pensando os Mauditos.  Documento pertencente aos arquivos pessoais de Francisca Pereira Dos Santos.

  • HALL, Stuart. “Notas sobre a descontrução do "popular"”, Da diápora. Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: UFMG, s/d.

  • LEMAIRE, Ria. “Tradições que se refazem”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Poéticas da Oralidade, n°35, Brasília, jan.-jun. de 2010.

  • PEREIRA DOS SANTOS, Francisca. Água da mesma onda (a peleja poética epistolar entre a poetisa Bastinha e o poeta Patativa do Assaré).  Fortaleza: editora Iris, 2011.

  • ________________ . Novas cartografias no cordel e na cantoria, desterritorialização de gênero nas poéticas das vozes. Universidade federal da Paraíba, 2009.

  • CHAÚI, Marilena. “Cultura e democracia”. Crítica y emancipación  n° 1, Buenos Aires, junho 2008, disponível em
    http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/CyE/cye3S2a.pdf,
    [consultado a 25/08/2011].

  • MARIA Salete entrevista,Revista Um outro olhar. Disponível em
    http://www.umoutroolhar.com.br/entrevistas_cordelirando.htm
    [consultado a 12/09/2011].
  • “O cordel entre tapas e beijos”, CONTRA-INDICAÇÃO, Juazeiro do Norte, abril 2000 (documento pertencente aos arquivos pessoais de Francisca Pereira dos Santos).










Notas

[1]. S. Romero, Estudos sobre a poesia popular do Brasil, Rio de Janeiro, Laemmert & Cia, 1888.

[2].  R. Alves de Melo,  “Lavradores de versos: corpos, papéis e máquinas na editoração do cordel em Juazeiro do Norte”, in S. Mendes (org.), Cordel nas Gerais, Oralidade, mídia e produção de sentido, Fortaleza, Expressão gráfica, 2010.

[3]. Esses doze poetas são: Francisca Pereira dos Santos, Salete Maria, Camila Alenquer, Helio Ferraz, Orivaldo Batista,  Júnior   Boca, Daniel Batata, Fernandes Nogueira, Ediane Nobre, Wilson Silmam, Cícero Soneca, Onofre.

[4]. “O cordel entre tapas e beijos”, Contra-indicação (Jornal de Juazeiro do Norte), documento pertencente aos arquivos pessoais de  Francisca Pereira dos Santos.

[5]. H. K. Bhabha, O Local da Cultura (2ª ed.), Belo Horizonte, UFMG, 2003.

[6]. F. Pereira dos Santos, Novas cartografias no cordel e na cantoria, desterritorialização de gênero nas poéticas das vozes, Universidade Federal da Paraíba, 2009.

[7]. Pensando os mauditos de F. Pereira Dos Santos e S. M. da Silva, documento pertencente aos arquivos pessoais de F. Pereira dos Santos.

[8]. P. Burke, Cultura popular na idade moderna: Europa, 1500-1800 (2ª ed.), São Paulo, Companhia da Letras, 1998.

[9].      C. Marilena, “Cultura e democracia”, Crítica y emancipácion, n°1, Buenos Aires, junho 2008, disponível em 
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/CyE/cye3S2a.pdf
[consultado a 25/08/2011]

[10]. Ibid.

[11]. Pensando os Mauditos, op. cit.

[12]. Ibid.

[13]. Ibid.

[14]. "O cordel entre tapas e beijos” Contra-indicação (Jornal de Juazeiro do Norte), op. cit.

[15]. Fanka é o pseudónimo utilizado pela pesquisadora Franscisca Pereira dos Santos enquanto poeta.

[16]. S. M. da Silva e Fanka,  A história de Joca e Juarez, Juazeiro do Norte, maio 2001.

[17]. S. M. da Silva, Maria de Araújo e seu lugar na história ou a A beata Beat Cult, projeto SESCordel, 2005.

[18]. “O cordel entre tapas e beijos”, op. cit.

[19]. Ibid.

[20]. Pensando os Mauditos, op. cit.

[21]. R. Lemaire, “Tradições que se refazem”, Estudos de literatura brasileira contemporânea. Poéticas da oralidade, n°35-Brasília, jan.-jun. de 2010.

[22]. Ibid.

[23]. “O cordel entre tapas e beijos”,  op. cit.

[24]. Ibid.

[25]. G. Agamben, Profanações, São Paulo, Boitempo Editorial, 2007,  p. 65.

[26]. Pensando os Mauditos, op. cit.

[27]. G. Agamben, op. cit., p. 65.

[28]. Ibid.

[29]. S. M. da Silva, Maria de Araújo e seu lugar na história ou a A beata Beat Cult, op. cit.

[30]. G. Agamben, op. cit., p.73.

[31]. Pensando os Mauditos, op. cit..

[32]. G. Agamben, op. cit., p.68.

[33]. Ibid.

[34]. Pensando os Mauditos, op. cit.

[35]. A poeta Sandra Alvino permitiu-me divulgar o contacto dela caso alguém queira ter mais informações a respeito do seu trabalho: alvinosandra@gmail.com.